Indústria forte em dezembro

Aquecimento industrial da Covid permaneceu até o apagar das luzes de 2020, mas dúvida é se fôlego continua no primeiro trimestre, com fim do auxílio emergencial , segunda onda e inflação.

Fernando Dantas

05 de fevereiro de 2021 | 12h48

A produção industrial de dezembro foi uma surpresa positiva, e bastante forte. Em relação a novembro (todas as comparações nessa base são dessazonalizadas) a alta de 0,9% ficou acima do teto das estimativas do Projeções Broadcast (0,7%), e muito acima da mediana de -0,5%.

Em relação a dezembro de 2019, a alta foi de 8,2%, precisamente no teto do Projeções Broadcast. A projeção mediana era de 5,3%.

A produção industrial, portanto, resistiu bem, em 2020, à redução do auxílio emergencial a partir de setembro, e também à alta da inflação no final do ano, que reduziu a renda real.

O destaque está na indústria de transformação, que cresceu 10,2% ante dezembro de 2019, e 1,5% ante novembro do ano passado. A transformação cresceu nas duas bases de comparação (mesmo mês de 2019 e ante o mês imediatamente anterior) em todos os meses do último trimestre.

Como explica a economista Luana Miranda, especialista em atividade do Ibre-FGV, a indústria da transformação corresponde a 55% da indústria total no PIB, e a cerca de 10% do PIB.

Esse comportamento vigoroso do segmento no último trimestre de 2020, portanto, pode criar um viés de alta para as projeções de crescimento nesse período e no ano passado como um todo.

Mas há ainda informações importantes por vir na próxima semana, as pesquisas mensais do comércio e dos serviços de dezembro, do IBGE.

Como se sabe, os serviços (incluindo o comércio) correspondem a mais de 70% do PIB nas Contas Nacionais. Os resultados das pesquisas do IBGE da semana que vem, portanto – ainda que tenham diferenças metodológicas e de ponderações em relação às Contas Nacionais –, serão decisivos para dar a cara do PIB do último trimestre e de 2020.

Por enquanto, diz Luana, há, com o resultado muito forte da indústria em dezembro, um viés de alta em relação à projeção de crescimento do PIB do Ibre do último trimestre do ano passado, de 1,9% ante o terceiro trimestre (na leitura dessazonalizada), o que levaria o resultado em 2020 a -4,5%.

Esse viés poderia trazer o PIB de 2020 mais para perto de -4%, mas a economista repisa que “se houver surpresa negativa no nos serviços e no comércio na semana que vem, isso pode ser revertido”.

Os serviços e o comércio, aliás, são em tese mais vulneráveis do que a indústria à pancada da segunda onda surpreendentemente forte da Covid-19 desde o final do ano passado.

Uma questão relevante é o que a força da indústria no último trimestre de 2020 diz sobre o setor e a economia como um todo nos primeiros meses de 2021.

A economista do Ibre nota que foi muito intensa a retomada da indústria, assim como a do varejo, após abril e maio, auge do impacto negativo da pandemia na atividade econômica em 2020.

Em setembro, a indústria já havia retomado o nível pré-crise, mas continuou a proporcionar surpresas positivas até dezembro, mesmo com a redução do auxílio e a inflação mais salgada.

Foi uma reação, o que já é bem conhecido, à enorme potência financeira do auxílio emergencial e ao redirecionamento do consumo de serviços (impossibilitado na quarentena) para bens.

Tanto a demanda aquecida quanto problemas na oferta na indústria, estes últimos associados ao fechamento ou redução da produção no início da pandemia, levaram inclusive a gargalos na entrega de insumos, embalagens e produtos finais em 2020.

Os estoques caíram. Luana acrescenta que as sondagens da FGV mostram que os estoques ainda estavam baixos em dezembro e janeiro.

“Em algum momento a indústria vai fazer uma recomposição” ela aponta.

A questão é saber se esse movimento pode acontecer com força no primeiro trimestre, o que seria um fator positivo para o PIB no início do ano (a previsão do Ibre é de queda de 0,5% no primeiro trimestre ante o último de 2020).

Mas é uma questão complicada.

Os empresários, relembra a economista, olham para o estoque mas também miram as perspectivas da demanda à frente. E, no primeiro trimestre, o auxílio não estará apenas reduzido (como no final de 2020), mas extinto. O Congresso pode pôr alguma coisa no lugar, mas provavelmente bem mais modesta e o timing da eventual implantação dificilmente impactará uma parte relevante do primeiro trimestre.

O efeito da inflação sobre a renda real também se transmite para 2021.

Finalmente, as restrições à movimentação pela segunda onda (e o ritmo lento da vacinação) poderiam novamente trazer problemas de oferta na indústria.

E, mesmo que a indústria surpreenda nestes primeiros meses do ano, o setor pode divergir do comércio e dos serviços, mais sensíveis à segunda onda.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, no Rio, pensa que a indústria pode manter o bom desempenho no primeiro trimestre, mas depois deve se aproximar de um platô.

Em consonância com Luana, ele vê o comércio e os serviços mais vulneráveis à segunda onda, além do abalo do fim do auxílio emergencial.

Rocha raciocina com o “ritmo basal” da economia brasileira, de crescimento de 1,5% ano, que prevaleceu de 2017 a 2019. A retomada da pandemia foi de fato em “V”, como atestam os números fortes do último trimestre, sendo que o último da lista foi a produção industrial de dezembro.

No início de 2021, entretanto, ele teme uma “barrigada” para baixo do ritmo basal, por causa dos fatores já mencionados do fim do auxílio, segunda onda, vacinação lenta etc.

Nesse contexto, a indústria poderia ser um modesto contraponto a limitar a barrigada.

Tanto Rocha quanto Luana, portanto, veem as melhores chances de 2021 mais para frente no ano, com destaque para o segundo semestre. É o tempo para o fim do auxílio ser digerido e a vacinação estar mais adiantada, com impactos efetivos na pandemia.

Há até alguns fatores positivos adicionais, nota a economista do Ibre, como o processo adiantado de vacinação nos países desenvolvidos (que pode ser positivo para a demanda global e as exportações brasileiras) e a alta das commodities.

A coluna acrescentaria o impulso fiscal de Biden nos Estados Unidos e a provisão ampla de estímulo e liquidez que se mantém como a orientação básica dos grandes bancos centrais.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/2/2021, terça-feira.