Indústria menos produtiva

Sem agenda de melhoras microeconômicas e integração internacional, indústria brasileira continuará atolada na ineficiência.

Fernando Dantas

13 de agosto de 2016 | 20h14

Entre 2007 e 2013, a produtividade do trabalho na indústria brasileira caiu 2,1% ao ano, de acordo com cálculos realizados pelos economistas Regis Bonelli e Mauricio Canêdo, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV), e que constarão de capítulo de um livro sobre produtividade que está sendo elaborado pela instituição.

O que mais chama a atenção de Canêdo nessa queda é o fato de que ela é basicamente consequência do recuo da produtividade total dos fatores (PTF). Se tudo mais se mantivesse constante, a produtividade do trabalho teria recuado 2,3% apenas por conta do mau desempenho da PTF. Na verdade, a produtividade do trabalho da indústria teria caído ainda mais se não fosse pelo fato de que houve contribuição positiva do capital humano, medido como a escolaridade média da população ocupada. O outro fator que poderia ter influenciado a produtividade do trabalho, a penetração do capital, praticamente não se alterou no período.

Para aqueles que veem a indústria como mola mestra do processo de crescimento econômico acelerado, os dados de Bonelli e Canêdo são uma péssima notícia. A PTF é uma variável que mede o resíduo das variações do produto que não se explicam pela variação de fatores mensuráveis, como capital humano e físico. Está associada, portanto, à eficiência com que os fatores de produção são utilizados e combinados.

A queda da PTF na indústria é um sinal de que a capacidade do País de produzir manufaturas de forma competitiva está sendo paulatinamente minada pelas conhecidas mazelas do sistema produtivo brasileiro: a complexidade e as distorções do sistema tributário, a má qualidade do ambiente de negócios sufocado pelo excesso de burocracia, a instabilidade macroeconômica e a proteção que desvia a energia empresarial da busca da eficiência para a busca de vantagens concedidas pelo governo.

Canêdo também vem estudando o sistema brasileiro de promoção de inovação, o que virá ser outro capítulo do livro sobre produtividade. Ele nota que as políticas dos últimos anos, baseadas basicamente na canalização de recursos públicos na forma de financiamento e subsídios à inovação, de fato aumentaram os gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) como porcentual do PIB. Os programas têm boa qualidade em termos de garantir que os recursos efetivamente ampliem o esforço de inovação.

Ainda assim, continua o economista, em diversas medidas o grau de inovação na indústria brasileira avançou pouco. Como no caso do aumento de capital humano que não foi suficiente para levar a uma melhora da produtividade do trabalho, uma parte da agenda de inovação está sendo bem executada, mas ainda assim o resultado que importa não é alcançado.

Canêdo atribui essa frustração à falta de foco na agenda microeconômica e de integração internacional nos últimos anos, inclusive com recuos nestas áreas durante o período da nova matriz econômica. Um dos aspectos essenciais dessas políticas equivocadas, para o economista, está nas políticas comercial e industrial, em que o aumento da proteção (seja tarifária, seja com as exigências de conteúdo nacional, preferência nas compras do governo, etc.) reduz a pressão sobre as empresas para inovar e buscar maior eficiência. Dessa forma, as tímidas melhoras na educação e o aprimoramento das políticas de inovação são desperdiçados, e a economia e a indústria em particular continuam atoladas na armadilha da baixa produtividade. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/8/16, sexta-feira.

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