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Indústria recua dez anos

Ainda não surgiu o fundo do poço para indústria, o investimento e o PIB. Já se fala de queda de 3% do PIB não só em 2015, mas também em 2016.

Fernando Dantas

05 de novembro de 2015 | 11h09

A produção industrial de setembro (divulgada em 4/11/15, quarta-feira) veio dentro do esperado, com a queda de 1,3% na comparação sazonal com agosto até um pouco abaixo da mediana de 1,45% das projeções coletadas pela Agência Estado. Isto, porém, não representa nenhum alívio na seara econômica. Na verdade, a produção industrial de setembro é mais um de uma fieira de indicadores que vêm desenhando, divulgação a divulgação, o quadro de uma economia que cai em queda livre sem que tenha surgido até agora o fundo do poço.

Assim, o indicador está em linha com a piora das expectativas que faz com que departamentos de análise econômica já projetem queda do PIB entre 2,5% e 3% em 2016 – ou até um pouco acima de 3%.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, observa que “perdemos praticamente dez anos de produção industrial”. Assim, em termos do indicador mensal dessazonalizado, a produção de bens de capital está próxima do nível de 2004, e as de consumo duráveis e de intermediários, próximas do nível de 2005. Apresentando queda “menor” estão os não duráveis, perto do nível de meados de 2009.

O pior, para o economista, é que “não há sinal de estabilização, e a média trimestral continua em franco declínio”. Os dados da Fenabrave, de queda de 37,4% na venda de veículos em outubro, na comparação como mesmo mês de 2014, indicam que não há melhoras à frente, nota Rocha. Ele acrescenta que as notícias de melhores perspectivas de exportação para algumas empresas são um alento pequeno, porque as vendas externas compõem uma parte bem pequena da demanda da indústria brasileira, que depende fundamentalmente de uma eventual retomada do mercado interno.

No Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV-Rio), o economista Vinícius Botelho confirma o pessimismo, indicando que a produção industrial deve ter outra queda sazonalizada ante o mês anterior em outubro – entre 1% e 2% – e deve recuar também na mesma base de comparação em novembro.

Botelho acrescenta que a tendência é de que as projeções do Ibre para o PIB de 2015 e 2016 piorem. Hoje elas estão em, respectivamente, -3% e -2,1%. Ressalvando que fala de forma muito preliminar, ele diz que há chances de a projeção de 2015 recuar para o patamar entre -3,2% e -3,5%, e a de 2016 se aproximar de -3%.

Já Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, comenta que “a queda não tem chão porque agora estamos vendo acontecer um forte processo de ajuste do mercado de trabalho”. A projeção de PIB da ARX para 2016 é de -2,5%, com tendência a piorar.

A economista nota que a produção industrial também dá sinais muito ruins em relação aos investimentos. A produção de insumos da construção civil está no pior nível da série, e os bens de capital estão caindo cerca de 20% em 12 meses. Ela acrescenta que a expectativa das empresas – medidas pelas sondagens da FGV – continuam apontando para o crescimento dos estoques, o que se soma aos efeitos da contração do consumo pela deterioração do mercado de trabalho. Já a confiança de empresários e consumidores, apesar de alguns sinais muito marginais de melhora em outubro e novembro, também não deu ainda mostra consistente de estabilização nos patamares atuais, que já são recordes de baixa.

Segundo Botelho, do Ibre, a queda livre da indústria pode ser vista como uma “devolução” de acréscimos de produção relacionados a estímulos de demanda, como o caso das reduções de IPI no caso dos veículos, ou a aposta excessiva na produção de petróleo e na expansão da Petrobrás, no caso das plataformas, que constam da pesquisa de produção industrial como “equipamento de transporte industrial”.

Agora, ele diz, há também os efeitos secundários dessa devolução, como é o caso dos bens intermediários – cerca de 60% da atividade industrial –, que registram queda interanual (ante o mesmo mês do ano anterior) de 7,2% em setembro e de 5,4% em agosto.

Todos os analistas ouvidos pela coluna apontam o nó político e fiscal, e seu efeito de criar incertezas e minar a confiança, como um fator importante da queda de economia. A isso se soma, naturalmente, o processo de piora do mercado de trabalho, que realimenta a freada da atividade, e vice-versa.

A visão é de que não há muito a se fazer em termos do processo cíclico, mas que uma melhora na situação política e fiscal – que agora estão intimamente interligadas – poderia, pelo menos, começar a formar um piso para o mergulho da atividade.

O problema é que não se vê o menor sinal disso. “O pacote para tentar garantir superávit primário em 2016 está sendo todo descontruído, como a gente vê na CPMF, no adiamento do aumento do funcionalismo, nas medidas relativas ao Sistema S – e nada foi colocado no lugar; o que sobra é a Cide e outras canetadas, insuficientes para chegar num primário positivo; parece que não há consciência no governo e no Congresso de quão grave pode ficar a situação em 2016, e eu fico abismada de não terem conseguido nem passar a DRU (Desvinculação de Receitas da União) na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça da Câmara)”, diz Solange (ela se referiu ao fato da DRU não ter passado na CCJ na terça-feira, 3/11 – na quarta, 4/11, foi aprovada, mas depois da entrevista de Solange).

Rocha, por sua vez, acha que uma possível saída para o governo é “propor um ajuste estrutural mais corajoso, que sinalizaria que as contas estariam controladas no médio prazo”.

Quanto à melhora do mercado ontem e hoje, Solange avalia que pode estar ligada à percepção de estrangeiros de que o Brasil está muito barato, mesmo levando em conta a crise. A economista avalia que a venda da divisão de cosméticos da Hypermarcas para a francesa Coty por R$ 3,8 bilhões pode ter sido um sinal nesse sentido. Mas ela e os analistas em geral permanecem muito céticos quanto à consistência da melhora do mercado nos últimos dias. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/11/15, quarta-feira.

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