Inflação acentua descontrole

IPCA de agosto veio acima do topo das expectativas, com sinais de espalhamento das pressões inflacionários. Banco Central está atrasado no aperto dos juros, e caos político semeado por Bolsonaro só atrapalha.

Fernando Dantas

09 de setembro de 2021 | 23h31

As más notícias não param no cenário econômico. Hoje foi o IPCA de agosto de 0,87%, acima do teto da estimativas do Projeções Broadcast, de 0,85%, e da mediana, de 0,7%.

O problema com o IPCA de agosto não foi só quantitativo, mas também qualitativo. As análises do índice apontam que a inflação, antes concentrada em itens que sofreram severos choques, agora está se disseminando para um conjunto muito mais amplo de bens e serviços.

Um gestor do Rio observa que a disparada da inflação desde o ano passado pode ser dividida em três etapas.

Em primeiro lugar, houve um choque de alta de commodities, que se transmitiu para a alimentação e para os bens duráveis (a partir das matérias primas não alimentícias), ampliado pela forte desvalorização do câmbio.

Depois vieram os problemas de oferta, devido a nós logísticos nas cadeias produtivas globais, que impactam setores como automobilístico, eletrodomésticos, eletrônicos, informática etc.

Por fim, já com sinais na inflação de agosto, diversos tipo de serviços começam a buscar reajustes à medida que a economia reabre, para assimilar altas de custos, como dos combustíveis, por exemplo.

As pressões inflacionárias de custos são um problema global, mas o Brasil ainda foi brindado com uma crise energética, que fez disparar as tarifas elétricas, afetando tanto a produção de bens como de serviços.

O economista André Braz, especialista de inflação do Ibre-FGV, foi surpreendido por altas acima do esperado em itens bem variados de serviços e do setor de bens: alimentação fora do domicílio, com alta de 0,76% no IPCA de agosto, versus sua projeção de 0,45%; eletrodomésticos, 0,86% versus 0,43%; vestuário, 1,02% versus 0,4%; transporte por aplicativo, 3,05% versus 0,9%; serviços de streaming, 6,4% versus 1,9%.

Mas também itens importantes mais próximos das primeiras etapas da atual escalada inflacionária surpreenderam o economista, e o mercado em geral. A gasolina subiu 2,8%, ante projeção de 1,8% de Braz, e o etanol teve alta de 4,5%, ante 2,3%.

Para Braz, a inflação está sendo impulsionada sobretudo por pressões de custos, que explicam o espalhamento da alta de preços.

Segundo a economista Anna Reis, sócia da Gap Asset (gestora no Rio) e especializada em inflação, a alta acima do projetado dos combustíveis e da alimentação em casa explicam a maior parte da surpresa inflacionária de agosto ante sua projeção. Ainda assim, há um resíduo explicado por altas acima da previsão de alguns bens e serviços. Em termos de núcleos de inflação, a fotografia não melhora.

A visão mais geral é de que o Banco Central está com um problema gravíssimo pela frente. As projeções de inflação deste ano estão agora trilhando firme a escalada entre os níveis de 8% e 9%. E as de 2021, salvo quando se imaginam cenários em que muita coisa se resolve de repente e ao mesmo tempo – crises política, fiscal, energética, cenário externo etc. – já veleja acima de 4%.

O juro ainda está muito baixo. Com inflação acumulada em 12 meses em torno de 10%, tem-se uma Selic que está quase na metade disso, em 5,25%. Tanto que altas graúdas de 1 ponto porcentual por reunião já parecem tímidas para muitos analistas, e se chega a especular sobre um ritmo de 1,5 pp por reunião.

Uma Selic chegando aos dois dígitos ao final deste ciclo de alta já não é uma aposta fantasiosa (embora o consenso ainda esteja abaixo disso)

O pior, entretanto, é a sensação de que as coisas estão saindo de controle, com o desvario político de Bolsonaro contaminando a evolução da economia.

E a postura de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central (BC), de apoiador político de Bolsonaro não ajuda nem um pouco nesse front.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/9/2021, quinta-feira.