Inflação ainda sob controle

IPCA mais alto do que o esperado em março não assustou analistas. O artigo explica por quê.

Fernando Dantas

11 de abril de 2019 | 11h47

O IPCA mais alto do que esperado em março não assustou os analistas. Como explica Carlos Macedo, economista da gestora Canepa, no Rio, da surpresa de 0,12 ponto porcentual (pp) no índice cheio, uma parcela de 0,9 pp derivou da surpresa no item alimentação no domicílio (que pesa 16% no IPCA cheio).

A surpresa do IPCA é a distância entre o índice efetivamente registrado, de 0,75%, e a mediana das expectativas, de 0,63%. E a surpresa na alimentação do domicílio é o desvio em relação à projeção da Canepa, mas que estava bem alinhada às de outras instituições.

A alimentação no domicílio, na verdade, foi de 2,07% em março deste ano, comparada a -0,19% no mesmo mês de 2018.

A maior variação em março último veio dos alimentos in natura, que subiram 9,29%, comparado à alta de 2,19% em março de 2018. Apesar de só terem peso de 2,32% no IPCA cheio, os alimentos in natura foram responsáveis por 0,22 pp do índice de 0,75% de março de 2019.

Os semiduráveis (onde se destaca vestuário) também vieram acima da projeção da Canepa, mas Macedo aponta que o efeito no índice cheio desta surpresa foi bem pequeno.

De qualquer forma, analisa o economista, “os núcleos seguem bem-comportados e a maior parte da alta veio de itens voláteis, o que não muda a avaliação de inflação calma e benigna para o BC”.

Macedo observa que os núcleos subjacentes, considerados importantes pelo BC, também vieram razoáveis em março. O de serviços foi 0,2%, abaixo dos 0,3% esperados pela Canepa. O EX2 (núcleo subjacente de serviços e produtos industriais) ficou em 0,25%, ante projeção de 0,2%. E o EX3 (que inclui adicionalmente alimentos) foi de 0,24%, ante previsão de 0,17%.

A média móvel de três meses anualizada do núcleo dos serviços subjacentes ficou em 3,33%, e a medida interanual (março de 2019 contra o mesmo mês de 2018) foi de 3,3%.

André Braz, economista da FGV especializado em inflação, vai na mesma linha de Macedo.

“O índice cheio veio acima da expectativa, mas não há nada de novo no radar”, diz o analista.

Braz, além dos alimentos in natura, cita a pressão dos transportes, que subiram 1,44% no IPCA de março, comparado a -0,25% no mesmo mês de 2018. Houve reajustes em transporte público e pesou a alta de quase 3% da gasolina.

Ele lembra que também os combustíveis são um item volátil, sendo ajustados numa frequência quase diária pela Petrobrás.

Quanto aos alimentos, menciona a quebra da safra de feijão carioca, cujo efeito máximo foi no final do primeiro trimestre.

A expectativa para o IPCA do segundo trimestre, prossegue Braz, é decrescente. Suas projeções são de 0,6% em abril, ainda com forte influência da gasolina, 0,2% em maio e 0,23% em junho. Os alimentos in natura devem perder fôlego e desacelerar muito, o que já começa a ser antecipado no IPA.

A inflação em 12 meses, que atingiu 4,58% em março, deve cair fortemente em junho, quando sairá da conta o IPCA de 1,26% deste mês em 2018, que sofreu grande impacto da greve dos caminhoneiros. O acumulado em 12 meses volta para menos de 4%, na sua avaliação.

Segundo Braz, o cenário inflacionário permanece “céu de brigadeiro”, e o IPCA ficará confortavelmente abaixo da meta de 4,25%. O principal risco que ele enxerga vem do câmbio, se uma combinação da turbulência política, fragilidade fiscal e situação externa levar a uma desvalorização mais forte.

Nesse caso, ele ressalva, haverá efeitos sobre a gasolina e sobre as principais commodities agrícolas cotadas no mercado internacional: trigo com impacto em panificados e massas;  soja, na carne bovina; milho, nas aves; e por aí vai.

Macedo, da Canepa, considera que o cenário tranquilo na inflação deve estar provavelmente fazendo com que o BC dê uma importância especial, neste momento específico da política monetária, aos indicadores de atividade. O Copom, segundo a última ata, está em processo de avaliar até que ponto a fraqueza da economia ainda é fruto de choques ocorridos em 2018. Se isso não se confirmar, na interpretação de boa parte do mercado, a janela se abriria para possíveis novos cortes da Selic.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/4/19, quarta-feira.