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Inflação baixa, mas complicada

Carlos Thadeu, da Asset 1, mostra como pandemia mudou a cesta de consumo do brasileiro (mais bens, menos serviços), além de apontar outros complicadores na história da inflação em 2020 - por mais enrolada que esteja, porém, deve ser muito baixa, o que é um alívio.

Fernando Dantas

10 de junho de 2020 | 19h07

A inflação de 2020 vai se revelando um certo bicho de sete cabeças. É fato que o IPCA ao final do ano deve ser baixo, muito baixo, e provavelmente ficará abaixo do piso do intervalo de tolerância, de 2,5%, relativo à meta do ano, de 4%. Mas essa constatação conta apenas parte da história.

Como aponta Carlos Thadeu Gomes Filho, economista-sênior da gestora Asset 1 Investment, a pandemia está provocando grandes mudanças na cesta de consumo das pessoas. O que, entre outros fatores, complica a história do IPCA em 2020 (mas que se mantém baixista).

Obviamente, essa alteração na cesta está ligada à quarentena maciça da população, e dura pelo menos enquanto se mantiverem as medidas de isolamento horizontal.

A dúvida é em relação à fase pós-pandemia. Até que ponto parte dessa mudança na cesta de consumo será mais duradoura, podendo se estender ao médio e, quem sabe, longo prazo?

Basicamente, como explica Thadeu, a população hoje está consumindo mais bens, e menos serviços, relativamente ao padrão pré-pandemia.

Não faltam exemplos emblemáticos. Fechadas em casas por longos períodos, muitos estão comprando televisões melhores, mas deixaram de ir ao cinema. Estão se empenhando na cozinha (que envolve bens como fogões, geladeiras etc.), já que deixaram de ir a restaurantes. Obviamente, alimentos também estão sendo muito demandados, assim como remédios.

Um exemplo prosaico, mas não menos significativo, são homens que compraram máquinas de cortar cabelo, já que não podem ir ao barbeiro.

E há, claro, a enorme queda dos serviços ligados a turismo e viagem, incluindo todas as formas de transporte.

Esse troca-troca na cesta de consumo está tendo impacto no IPCA, como fica evidente na divulgação do indicador de maio, ocorrida hoje. O IPCA do mês teve deflação de 0,38%.

Como indica Thadeu, os bens duráveis tiveram alta de 0,5%. TVs subiram 4,12%, e computadores (a adoção maciça do home office ajuda a explicar) tiveram alta de 5,25%. A inflação em maio das geladeiras foi de 1,91%, e, a das máquinas de lavar, de 2,31%. Até os automóveis subiram, em 0,74%.

Já os serviços tiveram deflação de 0,45% no IPCA de maio, como recuos de hospedagem (-1,57%), turismo (-0,66%), refeição fora de casa (-0,34%) e passagens aéreas (-27,14%).

Mas o que tudo isso diz para a inflação do ano?

Thadeu já chegou a projetar um IPCA em 2020 mais baixo do que seu número de agora, que é de 1,57%. Anteriormente, ele chegara a prever até um mínimo de 0,7%. O número atual, ele frisa, é com o que dá para enxergar até hoje, mas há muita incerteza à frente.

O que mudou? Em primeiro lugar, ele cita o entendimento entre Opep, Rússia e aliados para estender cortes recordes de produção de petróleo ate o final de julho, o que ajudou o barril a aproximadamente dobrar de valor desde o início de maio, e mudou a dinâmica deste mercado.

No IPCA, a gasolina ainda caiu 4,35% em maio, pois se trata do preço médio do mês, mas a projeção do economista é de que suba em torno de 12% entre junho e julho.

O outro fator é justamente a pressão sobre os bens, mencionada antes, que é um efeito da quarentena (e certamente a alta do dólar, suavizada nos últimos dias, no mínimo não atrapalha a tendência).

Na verdade, porém, Thadeu indica que as fortes incertezas sobre a pandemia e seus efeitos econômicos transmitem-se para o IPCA deste ano.

Primeiro, há dúvida sobre como vai evoluir o isolamento social. No momento, ele começa a ser relaxado. Mas, caso a contaminação volte com força, novas etapas podem acontecer.

Há também questões relacionadas à própria apuração do índice pelo IBGE durante a pandemia. O IBGE suspendeu desde março a coleta presencial de preços, e existe o problema de serviços que simplesmente fecharam as portas, como salões de beleza e barbeiros.

O economista nota que o IBGE está “colocando zero em muita coisa”, mas na reabertura o preço de muitos serviços pode surpreender.

Na verdade, não se trata de uma equação simples. Por um lado, o custo dos serviços pode aumentar, como o exemplo de um restaurante que terá menos mesas para distanciar as pessoas.

Por outro, há os efeitos da quarentena que podem se prolongar. Pessoas que se acostumaram a cozinhar em casa e que, pós-quarentena, podem evitar restaurantes inclusive por temor de contaminação. É um efeito que pode ser mais incisivo em grupos de maior risco para a Covid-19, como idosos.

Thadeu crê que, em balanço, esses efeitos devem ser mais desinflacionários. Isso significa que o Banco Central e o mercado podem ter uma surpresa baixista na inflação mais para o final do ano, quando muitos serviços reabrirem.

Enquanto a inflação dos bens está sendo captada em tempo real pelos índices de inflação, a desinflação dos serviços pode estar parcialmente camuflada pelo fechamento temporário de muitos estabelecimentos.

Mas, frisando de novo, a incerteza é muito grande, insiste o economista. É por isso, inclusive, que ele computou apenas parcialmente essa possível surpresa desinflacionária na sua projeção do momento para o IPCA do ano.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo  Broadcast em 10/6/2020, quarta-feira.

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