Inflação baixa veio para ficar

Fabio Giambiagi, chefe do Departamento de Pesquisa do BNDES, considera que inflação abaixo de 4% pode ser duradoura, desde que não haja algum evento político mais traumático que faça o câmbio disparar de forma caótica.

Fernando Dantas

25 Abril 2018 | 10h24

A inflação brasileira pode ter entrado num processo de queda e de manutenção em níveis baixos que é mais duradouro do que ainda pressupõem as análises mais convencionais.

A previsão é de Fabio Giambiagi, chefe do Departamento Econômico do BNDES. Há alguns meses, o BNDES se tornou instituição dealer do Banco Central (BC), o que levou o diretor financeiro, Carlos Thadeu de Freitas, a solicitar do Departamento Econômico que providenciasse aprimoramentos para que a instituição participasse do sistema de previsões Focus. Giambiagi, portanto, vem acompanhando de perto a inflação.

Ele frisa que a sua visão de médio e longo prazo da inflação tem uma ressalva importante: ela pressupõe que não ocorra nada dramático em termos das expectativas e da realidade da política e da política econômica. Se o País caminhar para um cenário em que as reformas são abandonadas e o desequilíbrio fiscal estrutural é ignorado, isto pode se refletir em forte e disruptiva desvalorização cambial, que reacenderá pressões inflacionárias.

Entretanto, descartando por hipótese este último cenário, ele aponta diversos fatos indicando que a inflação não apenas deve se aproximar de 3% este ano, com também não deve superar a faixa em torno de 3,5% em 2019.

Em julho do ano passado, o IPCA em 12 meses caiu abaixo de 3% e permanece abaixo deste nível por nove meses, tendo registrado 2,68% até março deste ano.

Giambiagi observa que “não é uma coisa restrita a alguns itens que estão com desemprenho particularmente favorável”. A média dos cinco núcleos mais acompanhados pelo BC e pelo mercado foi de 2,96% nos 12 meses até março, e, no trimestre até março, em termos anualizados, ficou em 2,52%.

O economista nota que a expectativa do mercado de que a inflação em 12 meses suba se dá pela substituição de alguns meses no período contemplado em que a inflação foi muito baixa no ano passado. Assim, para abril de 2018, a mediana da expectativa Focus indica IPCA de 0,32%, enquanto no mesmo mês de 2017 o índice ficou em 0,14%. Já em junho do ano passado houve deflação de 0,23%, e espera-se 0,25% de inflação no mesmo mês de 2018. Em setembro de 2017, o IPCA ficou em 0,16%, e agora a expectativa para o mesmo mês deste ano é de 0,28%.

O problema, diz Giambiagi, é que essas previsões mensais do IPCA parecem ser pouco afetadas pelas seguidas surpresas da inflação para baixo nos últimos tempos. A expectativa de inflação para outubro, por exemplo, era de 0,35% no início do ano, e se manteve exatamente neste nível até a última leitura do sistema Focus.

Assim, ele considera que pode haver novas surpresas “encomendadas” e o IPCA de 2018 pode ficar mais próximo de 3% do que dos 3,49% previstos pelo mercado no momento. Para 2019 ele também não vê razões para a inflação subir para perto dos 4,25% da meta.

Em relação à fixação da meta de inflação de 2021 pelo Conselho Monetário Nacional no final de junho, Giambiagi frisa que, com a credibilidade adquirida pelo BC e a baixa inflação, é forte a chance de que as expectativas se ajustem quase imediatamente e de forma indolor para um nível de 3,5% ou 3,75%, caso seja escolhido como novo objetivo.

Ele ressalva que a curva de juros continua muito inclinada, com juros mais longos bastante elevados, e diz que “o mercado tem assumido que o balanceamento vai ser dar pela elevação dos juros curtos depois da eleição”.

Giambiagi, entretanto, pensa que, mais importante do que saber se o atual ciclo de cortes da Selic vai terminar em 6,25% ou menos, é justamente saber quanto tempo a taxa básica se manterá neste nível mínimo. Para ele, se o próximo governo der continuidade à atual agenda econômica, e com o grande hiato e o ritmo morno de atividade, não há razões para supor que a Selic tenha que subir em 2019 – a menos de algum imprevisto que gere o evento cambial descrito na ressalva inicial do seu cenário. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/4/18, terça-feira.