Inflação da comida, no mundo e no Brasil

Economistas do FMI alertam para repique da inflação dos alimentos em 2022. Mas a economista Anna Reis, sócia da Gap Asset, no Rio, explica por que no Brasil pode ser um pouco melhor.

Fernando Dantas

25 de junho de 2021 | 21h56

A inflação de alimentos voltou ao foco globalmente nestes  tempos pandêmicos, como destaca recentíssimo post no Blog do FMI dos economistas Christian BogmansAndrea Pescatori, e Ervin Prifti.

Eles ressalvam que a alta do preço da comida arrefeceu um pouco recentemente, mas preveem que as pressões podem voltar, afetando de forma mais intensa países emergentes.

Os economistas listam quatro “fatos básicos” sobre o encarecimento da alimentação nos últimos anos.

O primeiro deles é que as pressões inflacionárias na comida iniciaram-se antes da pandemia, e estiveram em parte considerável ligadas ao sacrifício maciço do rebanho de porcos da China por causa da gripe suína a partir de 2018. O rebanho chinês é metade do mundial, e obviamente houve impacto em todo o setor de proteína animal no mundo.

O segundo fato é a história em si do preço da comida durante a pandemia. De início, houve pressão inflacionária por causa dos problemas nas cadeias de produção e do aumento da demanda (inclusive para estocar) de alimentos para consumir em casa.

Esse repique inicial retrocedeu em muitos países ainda em 2020. Mas aí veio a explosão no preço de commodities alimentícias que as levou a níveis em dólar próximos do recorde histórico, mesmo que (nesse patamar superelevado) tenha havido moderação mais recente.

Segundo os números dos economistas do FMI, há um repasse em média de 20% do preço da matéria prima para o produto alimentar final, que demora de seis a 12 meses para ocorrer.

O motivo do repasse limitado é que o produto final tem custos também de processamento, transporte, marketing, empacotamento etc.

O terceiro fato é que alguns desses custos adicionais, como fretes marítimos e transporte em geral, dispararam. No caso do frete, uma alta 200% a 300% nos últimos 12 meses.

O quarto fato, já mencionado de passagem no segundo, é o alto patamar atingido pelos preços de alimentos ao produtor. Eles listam três causas para esse fenômeno: estocagem de produtos alimentares básicos (incluindo rações animais) pelos países por causa da pandemia; o fenômeno La Niña em 2021-22 que provocou seca no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Rússia e Ucrânia; e movimentos especulativos com biocombustíveis.

Dados todos esses fatores, os economista preveem repique da inflação de alimentos em 2021 e 2022, afetando mais os emergentes, cuja cesta de consumo é mais pesada em comida. Numa conta precisa, em termos globais, ele preveem 1,75 ponto porcentual (pp) de aumento na inflação de alimentos tanto em 2020 quanto em 2021.

No Brasil, entretanto, a economista Anna Reis, sócia da Gap Asset (gestora no Rio) e especializada em inflação, considera que o cenário é menos preocupante. Ela prevê inflação de alimentos no Brasil de 6% este ano e de 3% em 2022.

Reis explica que o Brasil se destacou em 2020 por uma alta bem mais forte dos alimentos do que a de outros países em geral, inclusive emergentes. E isso se deu em parte porque, como o próprio Banco Central chamou atenção na apresentação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) esta semana, a desvalorização do real foi mais aguda e prolongada do que a de outras moedas.

Tão recentemente quanto abril deste ano, a desvalorização do real acumulada desde 1º de janeiro de 2020, de quase 45%, estava muito acima da perda de valor das moedas de México, África do Sul, Chile, China, Colômbia, Rússia e Austrália, e até um pouco acima da lira da Turquia, país particularmente convulsionado em termos macroeconômicos.

Na leitura mais recente, com perda de 22%, o real ainda se encontra bem mais desvalorizado do que, por exemplo, o peso mexicano (-4,4%). Mas bem melhor que a lira turca, que recua 45% desde 1/1/2020.

Não coincidentemente, como consta de gráficos do RTI de junho, a inflação de alimentos no Brasil e na Turquia (afetando relevantemente a inflação ao consumidor total) desde janeiro de 2020, de respectivamente 20,1% e 25,5%, se destaca entre as demais. No caso de México, Peru e Chile, o indicador está abaixo de 10%. Na África do Sul, está quase zerado.

Reis explica que ainda há “uma pernada adicional” da alta de commodities, do início do ano para cá, para potencialmente impactar os preços de alimentos ao consumidor no Brasil.

Mas o seu relativo otimismo em relação a esse segmento baseia-se em alguns fatores.

Um deles é justamente a moderação recente do  movimento do preço das commodities. Mas ela destaca que, assim como o efeito do câmbio se propagou mais forte no Brasil em termos do preço da comida do que em outros países ao longo de boa parte do período pandêmico, recentemente o real se apreciou (cerca de 17% desde o ponto mais desvalorizado em março). A influência agora, claro, tende a ser na direção contrária.

“Ainda pode haver alguma surpresa no preço de alimentos nos próximos seis meses por causa do repasse que ainda resta da alta das commodities, mas o atacado estabilizou e o dólar acalmou – assim, o ano que vem deve ser tranquilo nesse setor”, resume a economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/6/2021, sexta-feira.