“IPCA de 6,37% em 2022, com viés de alta”

Carlos Thadeu, da Asset1, um dos primeiros analistas a antecipar que IPCA este ano ia disparar, projeta inflação para o 2022 muito acima da meta de 3,5%.

Fernando Dantas

10 de novembro de 2021 | 18h46

Em 28 de julho, no espaço desta coluna, Carlos Thadeu, economista sênior da Asset1, previu que a inflação deste ano chegaria a 8,5% e a de 2022 a 4,6%. Naquele momento, a expectativa de IPCA do Focus era de 6,8% para 2021 e 3,8% para 2022.

As projeções de Thadeu soaram chocantes na época, mas se confirmaram bem mais acertadas que a mediana de mercado. Agora, o economista da Asset1 prevê IPCA no próximo ano de 6,37%, com viés de alta. E para este ano sua previsão é de 10,52%.

A última projeção mediana divulgada pelo Focus é de 9,33% e 4,63%, respectivamente, para 2021 e 2022. Se em relação a este ano um punhado de instituições já trabalha com IPCA de 10% ou mais, para 2022, em particular, novamente a projeção da Asset1 é muito mais pessimista que a do mercado.

Sobre o IPCA de outubro de 1,25%, acima do teto (1,19%) das estimativas do Projeções Broadcast, Thadeu nota que a persistência da alta dos bens industriais está ainda maior do ele esperava, com destaque para os automóveis novos.

E a aceleração da inflação de serviços, já registrada no IPCA-15 de outubro, também se antecipa à expectativa de que ocorresse com mais força no final do ano, com a provável reabertura total da economia.

A força da inflação no Brasil não é um fenômeno isolado, ele nota, já que no cenário global pós-Covid tem se registrado maior persistência da alta dos preços.

Thadeu não vê muito efeito da política de alta dos juros pelo BC em 2022, com a eficácia anti-inflacionária do ciclo de aperto monetário provavelmente se fazendo sentir mais em 2023, para quando projeta IPCA de 4,1%.

O analista também menciona alguns problemas específicos para 2022, como a aceleração do preço dos fertilizantes, que chegou a triplicar em alguns casos. O setor sofre com a ruptura da oferta de gás natural, seu principal componente, na Europa, ligada a manobras de Vladimir Putin, presidente da Rússia.

A crise energética chinesa também está afetando a produção de fertilizantes no país do extremo asiático, e tanto China como Rússia reduzem exportações do produto, segundo Thadeu.

Ele observa que a aceleração do preço dos fertilizantes tem impacto nos alimentos no Brasil, que importa mais de 80% do que consome do produto.

A pressão no preço da energia na Europa, para Thadeu, vai perdurar até o primeiro semestre do ano que vem, por conta do frio.

Outro foco de inflação em 2022 no Brasil, continua o economista, é a carne bovina. O embargo chinês à carne brasileira fez o preço cair muito, reduzindo o estímulo para a produção e novos confinamentos. Com condições de seca, o pasto verde só virá em abril do próximo ano.

Assim, ele prevê pressão significativa entre dezembro e abril de 2022, “semelhante a 2019”.

Thadeu pensa que esses novos choques farão os analistas revisarem para cima as projeções para a inflação no próximo ano.

“O mercado já caminha para 5%, e deve ir para 6%”, ele diz.

O economista da Asset1 não compartilha de certo otimismo na área de energia com as boas chuvas de outubro. Para ele, de fato o fenômeno La Niña, ligado à seca, está atrasado este ano em relação a 2020, mas deve vir a partir de novembro.

“O mais provável é que 2022 tenha um padrão [de chuvas] similar a 2021, que foi uma catástrofe”, prevê.

E finalmente há os bens industriais e serviços mencionados acima.

De acordo com Thadeu, a situação em muitos países, como Estados Unidos, Alemanha e China, indica que o pior ainda está por vir no nó logístico e produtivo do setor automotivo. A situação de estoques e produção continua a se agravar por falta de componentes, com destaque para chips.

Ele acrescenta que a grande surpresa hoje no CPI (inflação ao consumidor) de outubro dos Estados Unidos foram os automóveis usados, que voltaram a pressionar após certa acomodação.

Em relação aos serviços, os sinais são de demanda reprimida e possível falta de hotéis e aviões na temporada de viagens e festas de final de ano.

O que Thadeu chama de “efeito mola”, uma explosão de consumo de serviços que foram represados na pandemia. No Rio, por exemplo, há casais marcando casamento para 2023, por falta de datas em casas de festa no ano que vem.

A Asset1 está há três meses consecutivos no primeiro lugar do ranking Top Five de médio prazo de inflação.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/11/2021, quarta-feira.