Inflação de bens é mais benigna?

Estudo de economistas publicado no site VOX EU indica que inflação de bens, que puxou atual surto inflacionário nos EUA, não atinge tendência inflacionária. É uma boa notícia, mas autores fazem ressalvas.

Fernando Dantas

10 de maio de 2022 | 11h05

A alta forte da inflação nos Estados Unidos está levando à reprecificação do ciclo de elevação dos juros americanos, o que mexe com os nervos dos mercados globais.

Desde 2021 as notícias sobre inflação nos Estados Unidos – assim como no Brasil – de maneira geral têm sido ruins.

De início os bancos centrais trataram a disparada dos preços como fenômeno passageiro, mas a persistência e a intensidade do movimento foi alterando essa convicção. Hoje teme-se que a sucessão de choques de oferta e demanda da pandemia e, agora, da guerra da Ucrânia tenha produzido pressões inflacionárias mais profundas, e se faz até o paralelo com a década de 70.

Na verdade, porém, o que predomina ainda é uma enorme incerteza sobre a natureza da atual onda inflacionária, tornando a vida dos bancos centrais particularmente difícil.

Nesse sentido, surgem ainda análises sugerindo que, no final das contas, pode ser que se trate mesmo de um surto temporário, ou que a desinflação esteja mais próxima do que se pensa.

Recente artigo dos economistas Yunjong Eo, Luis Uzeda e Benjamin Wong, no site econômico VOX EU, mostra que a inflação de bens – que puxou a inflação como um todo desde o início de 2021 – tornou-se ao longo das últimas décadas bastante transitória, afetando muito pouco a tendência inflacionária.

Já na célebre inflação dos anos 70, cuja repetição agora é tão temida, a tendência da inflação de bens, assim como a dos serviços, acompanhou a elevação da inflação como um todo.

Os autores mostram que, desde os anos 90, a inflação de bens oscila muito, mas não afeta a tendência inflacionária nos Estados Unidos. Outro achado dos economistas é que a volatilidade da tendência inflacionária caiu drasticamente entre os anos 70 e o período a partir da década de 90. Ao mesmo tempo, a volatilidade da inflação de bens deixou de contribuir para a volatilidade da tendência inflacionária.

Em síntese, Eo, Uzeda e Wong escrevem que “a inflação no setor de bens ao longo das três últimas décadas contribuiu muito pouco ou nada para a variação no componente persistente da inflação como um todo”.

Já que, como eles mesmos apontam, “os bancos centrais devem atuar apenas quando percebem que as pressões inflacionárias provavelmente são persistentes”, surge a indagação de se, afinal, não será preciso uma alta assim tão forte dos juros nos Estados Unidos para combater o atual episódio inflacionário.

Os próprios autores, entretanto, soam uma nota de cautela sobre as suas conclusões. Os autores montaram uma série da inflação tendencial dos Estados Unidos desde o início dos anos 60, subdividindo-a entre a inflação tendencial dos bens e a dos serviços.

Como as variações da inflação de bens afetaram muito pouco a tendência inflacionária, é de esperar que a disparada inflacionária dos bens na pandemia não tenha influenciado de forma relevante a tendência geral da inflação no modelo dos autores. E, de fato, a tendência da inflação geral ao final de 2021, segundo o modelo, era de 2,2%, não muito distante da meta de inflação de 2% do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA).

Só que o mesmo modelo revela que 67% do intervalo crível para a inflação tendencial no final de 2021 se situa entre 1% e 4%, com um espaço para cima dos 2,2% bem maior do que para baixo. Assim, o risco é mais de que a inflação tendencial esteja acima do que abaixo da estimativa dos economistas.

Em conclusão, eles escrevem que “de um ponto de vista de gestão de risco, não se deveria aceitar necessária e inequivocamente que a alta inflação atual é transitória”.

Enfim, o trabalho traz uma possível boa notícia, mas seus autores preferem se manter na atitude de “o seguro morreu de velho”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/5/2022, segunda-feira.