Inflação de serviços dura na queda

A queda da inflação de serviços acumulada em 12 meses foi interrompida a partir de maio.

Fernando Dantas

13 de agosto de 2016 | 20h07

Uma das características da atual crise que impressiona os economistas é o fato de a alta inflação ser tão resistente a uma queda brutal da demanda como a que vem ocorrendo. É verdade que, em 2015, a inflação passou dos dois dígitos por causa do reajuste dos preços administrados e do câmbio. Parte do impacto cambial transmitiu-se para 2016, e agora espera-se que a reapreciação do real desde janeiro tenha efeitos positivos que se distribuam no que resta deste ano e no próximo.

Ainda assim, quando se toma a inflação de serviços, uma porção fortemente inercial, o processo de desinflação tem sido lento e difícil. A economia brasileira desacelerou-se desde 2011, mas a inflação de serviços manteve-se em torno de 9%, bem acima do índice cheio, por muito mais tempo. A explicação oficial era a defasagem entre o PIB e o mercado de trabalho, que continuou apertado até 2014.

Em 2015 e 2016, entretanto, tudo veio abaixo, com a economia abrindo um impressionante hiato entre seu desempenho efetivo e o crescimento potencial. Ainda assim, em dezembro de 2015, a inflação de serviços acumulada em 12 meses do IPCA-15 (o índice é utilizado, no lugar do IPCA, porque já possui dados até julho de 2016) ainda estava próxima de 9% – mais precisamente, em 8,76%, na medida que exclui as supervoláteis passagens aéreas.
André Braz, economista e especialista em inflação da FGV-Rio, nota que foi precisamente a partir do início de 2016 que a inflação de serviços finalmente deu mostras de reagir à violenta piora da economia e do mercado de trabalho. O índice acumulado em 12 meses (sempre excluindo as passagens aéreas) caiu em cada um dos quatro primeiros meses do ano, a uma média mensal de 0,33 ponto porcentual (pp), atingindo 7,44% em maio.

Finalmente estava se desenhando um cenário em que os componentes inerciais da inflação reagiam à abertura do hiato do produto como previsto na teoria, indicando que os serviços poderiam caminhar na direção de uma trajetória próxima a do índice cheio.
Mas Braz nota que, a partir de maio, o movimento de queda foi interrompido. Na verdade, a inflação de serviços acumulada em 12 meses subiu em maio e junho, e voltou a recuar em julho, retornando precisamente ao nível de maio.

O economista da FGV considera preocupante essa interrupção da queda: “Havia a hipótese de que a forte piora da atividade econômica resultasse numa desaceleração contínua, ainda que mais lenta do que o ritmo entre dezembro e maio”, ele diz.

Uma possível explicação parcial, segundo Braz, é a alta sazonal dos alimentos, com impactos sobre o item de refeições fora de casa, que faz parte da inflação de serviços. Neste caso, é possível que a sazonalidade venha a compensar esse efeito, quando a oferta de alimentos melhorar.

Já Marco Antônio Franklin, sócio fundador da Platina Investimentos, no Rio, chama a atenção para uma mudança metodológica no IPCA que pode ter contribuído para a interrupção da queda da inflação de serviços a partir de maio. A alteração afeta dois itens – empregados domésticos e a mão de obra de reparos na habitação, que juntos correspondem a 15,5% da inflação de serviços e a 5,4% do IPCA.

Ambos eram calculados a partir de indicadores salariais contidos na Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que foi descontinuada. Assim, a partir de maio, passaram a ser calculados como a variação mensal que, acumulada em 12 meses, corresponde à elevação do salário mínimo do ano anterior – o que dá uma variação fixa de 0,87% por mês até o final do ano. De janeiro a abril, a variação média dos empregados domésticos foi de 0,71%, e a da mão de obras de reparos bem inferior a isto.

Franklin nota que essa mudança metodológica pode estar freando a queda da inflação de serviços este ano, mas pode colaborar para que ela ocorra em 2017. Como o reajuste do salário mínimo em 2017 será cerca de três pontos porcentuais inferior ao de 2016, ele estima que de largada a inflação de serviços cai aproximadamente 0,5 pp no próximo ano, o que significa um recuo de 0,16 pp no IPCA cheio. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/8/16, quarta-feira.

P.S.: Após publicar a coluna, recebi e-mail de respeitado economista sobre o fato de que há uma queda “comprada” na inflação de serviços (causada pela queda do salário na esteira do aumento do desemprego. A taxa de 12 meses cai pouco, mas em nível bem menor estão a taxa trimestral anualizada e a última taxa mensal anualizada. Assim, a média será puxada para baixo pela queda maior de medidas marginais.

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