Inflação de serviços em foco

Bráulio Borges, da LCA, analisa inflação de serviços pela ótima de salários, aluguel e câmbio, e prevê queda - mas só a partir de 2016.

Fernando Dantas

23 de março de 2015 | 10h49

O IPCA acumulou uma média anual de 8,6% de 2000 a 2004, período com momentos de crise aguda; de 4,7% ao ano de 2005 a 2009, quando o sistema de metas de inflação viveu o seu melhor momento no Brasil; e de 6,1% de 2010 a 2014. Uma diferença marcante entre os dois primeiros períodos e o terceiro é o comportamento da inflação de serviços, considerada talvez o maior problema da fase de pressão inflacionária dos últimos anos.

Como observa Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, a inflação de serviços do IPCA (no caso, tratam-se apenas dos serviços prestados às famílias) ficou em 6,4% ao ano tanto no período 2000-2004 quanto no período 2005-2009. De 2010 a 2014, porém, ela subiu para 8,7% anuais.

Tomando-se a média dos dois primeiros períodos (2000-2004 e 2005-2009), enquanto a inflação de serviços subia a 6,4% ao ano, a inflação de bens correu em 6%. Borges nota que é normal na maioria dos países que os preços de serviços andem mais rápido do que o de bens, em função de diferenciais de ganhos de produtividade e de possibilidade de competição com importados. O problema no Brasil é que, de 2010 a 2014, essa divergência acentuou-se muito – enquanto os serviços subiram 8,7% ao ano, os bens tiveram inflação média anual de 5,4%.

Num cálculo bastante simples – que ele ressalva que tem alguns problemas por causa de mudanças de pesos desses componentes ao longo dos anos –, Borges estimou que o IPCA de 2010 a 2014 teria subido cerca de 5% ao ano, e não de 6,1%, caso os serviços tivessem mantido o ritmo de 6,4% ao ano de 2000 a 2009.

Depois de um pico de alta de quase 10% ao ano em 2011, a inflação de serviços do IPCA entrou numa gradual desaceleração nos anos seguintes, mas mantendo-se num nível alto e acima do índice cheio. Hoje está próxima a 8,5%. Um detalhe curioso que chamou a atenção de Borges é que a inflação de serviços em 2002 e 2003, período de forte desemprego e acentuada queda do salário real, correu em torno de 8% (vinda de menos de 4% em 2000).

Em sua investigação sobre o tema, o economista notou que a inflação dos serviços, apesar de tradicionalmente associada à dinâmica do setor de produtos não negociáveis internacionalmente (non tradables), tem um componente tradable relevante.

Assim, entre os principais custos dos serviços prestados principalmente às famílias, como porcentual da receita operacional líquida (calculados a partir da Pesquisa Anual de Serviços de 2012 do IBGE), uma parcela de 24,4% é de ‘mercadorias, materiais de consumo e reposição’; 0,9% são ‘mercadorias revendidas’ e 0,3% são combustíveis e lubrificantes. Todos são itens influenciados pela inflação de tradables (que, por sua vez, depende em grande medida das oscilações cambiais e de choques de oferta).

Há uma correlação razoável entre as trajetórias da inflação de serviços às famílias e bens tradables de 2000 a 2014. A inflação de bens parece mover-se antes em alguns momentos, noutros os movimentos são mais contemporâneos. Um exercício econométrico feito pelo economista sugere que a causalidade é mais dos bens para os serviços do que o inverso.

Adicionalmente, há os aluguéis, que representam tanto um componente direto do IPCA Serviços como também um custo para os demais serviços prestados às famílias (com peso de 4,6% no custo do setor, em média). Tipicamente são um non tradable, mas no Brasil há a peculiaridade de os aluguéis sob contrato serem em grande parte indexados ao IGP-M, um índice fortemente impactado pelo câmbio. Segundo Borges, o pass-through cambial no IGP-M chega a 40%. Assim, de certa forma, os aluguéis também trazem dentro de si um elemento tradable que influencia a inflação de serviços ao consumidor.

E, finalmente, os serviços no IPCA são influenciados pelos salários, efetivamente um item non-tradable. Além de estimular a demanda por serviços, os salários entram como 24,9% do custo dos serviços prestados às famílias.

A partir dessas constatações, Borges projeta uma inflação de serviços de 7,8% em 2015, para um IPCA cheio de 8,1%. Para 2016, as projeções são de respectivamente 7,2% e 5,3%.

Essas previsões partem do fato de que, na área salarial, já houve uma queda real do salário de admissão do Caged de 2% em fevereiro em relação ao mesmo mês de 2014. Os novos aluguéis residenciais medidos pelo Secovi (referentes a São Paulo) caíram de um pico de inflação acumulada em 12 meses de 20% em 2011 para menos de 3% no final de 2014. Há, portanto, dois componentes importantes da inflação de serviços apontando para uma tendência baixista. Há uma incerteza sobre o timing do repasse desse alívio de custos nos aluguéis novos, já que o contrato padrão de aluguel é de 30 meses.

Por outro lado, o câmbio voltou a se desvalorizar, o que impacta tanto o custo dos serviços quanto os aluguéis via IGP-M. Isso explica porque Borges vê uma inflação de serviços ainda perto de 8% em 2015. Em 2016 e 2017, porém, a sua hipótese é que o câmbio nominal se estabilize ou até tenha alguma apreciação, o que justifica sua projeção otimista sobre uma queda mais significativa da inflação de serviços no médio prazo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 20/3/15, sexta-feira.

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