Inflação de serviços pode ceder

Há mais otimismo de que o componente mais duro na queda da inflação brasileira possa, finalmente, entrar nos eixos.

Fernando Dantas

02 Dezembro 2016 | 20h33

Após anos na condição de osso mais duro de roer pelo Banco Central (BC), a inflação de serviços começa a ceder ao peso da grande recessão brasileira e seus fortes efeitos no emprego e na renda. Projeções de que a inflação de serviços caia para próximo de 5,5% em 2017 e 5% em 2018 – ou até mais otimistas – estão se tornando mais críveis e coerentes em relação às previsões igualmente cadentes para o desempenho do PIB no próximo ano. Em outras palavras, as más notícias no campo da atividade estão finalmente se traduzindo de forma mais consistente em boas notícias no campo da inflação, como toda autoridade monetária gostaria que ocorresse.

A inflação cheia de serviços do IPCA manteve-se elevada enquanto a economia se desacelerava e passava a cair, fechando 2012 e 2013 na casa de 8,7%, e em 8,3% em 2014. O índice recuou apenas levemente para 8,1% ao final de 2015, mesmo com a queda de 3,8% do PIB no ano passado (com a revisão do PIB a ser anunciada na quarta-feira, este número pode melhorar ligeiramente).

Essa resistência da tendência do preço dos serviços levou a muitas discussões sobre o papel da inércia na dinâmica inflacionária brasileira e também sobre qual o efetivo hiato do produto, a diferença entre o PIB potencial e o PIB real num determinado período. Afinal, diante da brutal recessão na qual o País foi mergulhado, seria de se esperar que a inflação de serviços se desacelerasse mais rapidamente. Se isto não acontecia, deveria ser por algum motivo: quem sabe o produto potencial brasileiro despencara tanto que o hiato, afinal, não era tão alto quanto o imaginado?

Em termos de mercado de trabalho, é verdade, os efeitos da desaceleração da economia brasileira desde 2011 vieram com uma longa defasagem. A taxa de desemprego da Pnad Contínua de dezembro (referente ao último trimestre do ano) caiu de 6,86% para 6,18% entre 2012 e 2013, e fechou 2014 com um pequeno aumento para 6,49%, num nível ainda menor do que o de dois anos antes.

Assim, era também possível fazer o argumento, até certo momento, de que a desaceleração estava custando a baquear o mercado de trabalho, e é este, em última instância, o fator decisivo para a inflação de serviços. Em 2015, entretanto, o desemprego da Pnad Contínua explodiu para 9% em dezembro, enquanto o recuo da inflação de serviços do IPCA, como visto acima, foi de apenas 0,2 ponto porcentual.

Foi em 2016, finalmente, que os serviços começaram a se desacelerar. Mas mesmo este ano o processo foi sofrido, com uma aparente interrupção na primeira metade do segundo semestre. A inflação de serviços do IPCA caiu de 8,1% no acumulado em 12 meses até setembro de 2015 para 7% em junho de 2016, na mesma base de comparação, mas manteve-se nos mesmos 7% nos 12 meses até setembro.

Na sua comunicação ao longo dos últimos meses, o BC manifestou preocupação com o ritmo lento da queda dos serviços. Na ata da última reunião do Copom, de outubro, o Copom alerta que “a experiência brasileira recente, com período prolongado de inflação alta e expectativas acima da meta, ainda pode reforçar mecanismos inerciais”, e menciona “sinais de uma pausa recente no processo de desinflação dos componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária”.

Agora, porém, parece haver renovada fé em diversas casas do mercado de que a inflação de serviços vai mesmo vergar ao peso do estrago na atividade e no mercado de trabalho, e ao fato de que a economia ainda parece não ter encontrado o fundo do poço. Se de fato acontecer, será um alívio para o Banco Central, que poderá prosseguir o ciclo de redução da Selic até níveis próximos a 10%, na condição de que o abalo provocado por Donald Trump na arena internacional não venha a provocar uma desvalorização do real ainda bem mais forte do que já ocorrida até agora. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/11/16, segunda-feira.