Inflação de serviços resiste

Elemento mais inercial da inflação, preços de serviços ainda sobem 8,5% ao ano, mas aumento do desemprego podem levar à desaceleração.

Fernando Dantas

15 Abril 2015 | 16h56

Embora tenho vindo até um pouco abaixo da mediana das expectativas do mercado, o elevadíssimo IPCA de março, de 1,32%, mostrou que a inflação de serviços – o principal vilão da inércia inflacionária – resiste em cair. Excluindo o item extremamente volátil das passagens aéreas, a inflação de serviços acumulada em 12 meses aumentou de 8,46% em fevereiro para 8,50% em março.

Para a economista Adriana Molinari, que faz o acompanhamento da inflação na consultoria Tendências, a resiliência da inflação de serviços, somada a um início de repasse cambial aos preços dos produtos negociáveis internacionalmente (tradables), deve dar gás à inflação de preços livres. A Tendências está com uma projeção de 6% para a inflação de preços livres em 2015, mas Adriana diz que o número será revisto para cima. Com isto, também subirá a previsão do IPCA cheio do ano, por enquanto em 7,9%.

André Braz, especialista em inflação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, nota que há sinais de repasse cambial nos preços de alimentos. Ele observa que, após a energia elétrica –   grande responsável pela forte alta do IPCA em março e no primeiro trimestre –, a segunda maior contribuição para o índice de março foi o da alimentação (dentro e fora de casa), que subiu 1,17%, e foi responsável por 22% da alta do índice. Especificamente, o óleo de soja subiu 3,95% e o pão francês, 093%, o que ele atribui ao repasse cambial na soja e no trigo.

Quanto à inflação de serviços, há expectativa de que ela venha a ceder em função da deterioração do mercado de trabalho, mas isso ainda não parece estar ocorrendo.

“Com certeza a inflação de serviços vai cair, já que as notícias sobre o desemprego estão ficando assustadoras, mas talvez o movimento não seja tão rápido e tão grande, já que a inflação de serviços tem uma inércia enorme, e está elevada desde 2010”, diz Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio.

Adriana, da Tendências, vê dois fatores que podem estar travando a queda da inflação de serviços: a alta indexação de preços no setor, e, num primeiro momento, repasses da alta de energia elétrica, que acumula 60,4% em 12 meses (a Tendências projeta para o ano elevação de quase 70%). Naturalmente, num segundo momento, a forte queda da demanda deve trazer a inflação de serviços para baixo. Adriana acha que o movimento deve ganhar força no segundo semestre e ser suficiente para que, em 2016, a inflação de serviços caia para 6,5%.

Com alta de 22,08%, a energia elétrica respondeu por 0,78 ponto porcentual, ou 54% do IPCA de março. A alta dos preços administrados no mês foi de 3,36%, e Solange, da ARX, projeta uma elevação deste item próxima a 15% no ano. Sua projeção para o IPCA cheio em 2015 está em 8,4%, e, para 2016, em 6%.

Com o IPCA de março de 1,32%, a inflação acumulada em 12 meses foi para 8,13%. Braz, da FGV, observa que a inflação média acima de 1,2% no primeiro trimestre, registrada este ano, é muito rara. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada em 8/4/15, quarta-feira