Inflação difícil de domar

Alta dos serviços mostra a cara no IPCA de julho e preços administrados pressionam inflação do ano. Enquanto isso, como fica claro na ata do Copom, BC briga para conter alta das expectativas inflacionárias.

Fernando Dantas

11 de agosto de 2021 | 11h13

O IPCA de julho, de 0,96%, veio quase na mediana do Projeções Broadcast, de 0,95%. Mas isso não quer dizer, em absoluto, que o mercado esteja sossegado com o que vem ocorrendo na inflação. Pelo contrário, há uma tendência de revisão para cima no IPCA de 2021 (com reflexos parecidos no de 2022), que o resultado de hoje corrobora.

Um setor para o qual todos os analistas estão olhando são os serviços, que, ao longo de toda a pandemia, foram a grande âncora da inflação. Agora, porém, com a economia reabrindo com força crescente, há a expectativa de que o consumo de serviços volte neste segundo semestre com uma fome de anteontem.

Segundo quesitos especiais incluídos recentemente na Sondagem do Consumidor da FGV, uma parcela de 70% das famílias com maior poder aquisitivo pretende aumentar os gastos com viagens, transporte, restaurantes, cinema e atividades sociais.

No IPCA de julho, os serviços tiveram alta de 0,67%, ante 0,23% no índice de junho. Em 12 meses até julho, os serviços acumulam elevação de 3,04%. É ainda abaixo da meta de 2021 (3,75%), mas deve se levar consideração que tão recentemente quanto no IPCA de maio a inflação acumulada em 12 meses nos serviços era de 1,75%

“Há uma pressão dos serviços por conta da redução das restrições de circulação, que está acontecendo de forma mais rápida do que se imaginava”, comenta Fábio Romão, economista da consultoria LCA que acompanha inflação. A pressão, segundo o analista, também atinge os serviços subjacentes, “uma espécie de núcleo dos serviços”.

A experiência norte-americana também mostra que os gargalos de oferta que tanto têm interferido no mercado de bens também se fazem presentes em serviços. Durante a pandemia, muitos estabelecimentos de lazer, alimentação fora de casa e hospedagem foram fechados, assim como serviços a pessoas (cabelereiro, salões de beleza etc.). Empresas aéreas devolveram aeronaves em leasing.

O economista André Braz, especialista em inflação do Ibre-FGV, ressalva que a inflação salgada dos serviços em julho teve muita influência das passagens aéreas, item conhecido por oscilações muito extremas e rápidas, que poluem um pouco a tendência dos serviços como um todo.

As passagens aéreas subiram 35,22% no IPCA de julho. Tirando fora o item, os serviços subiram 0,38% em julho e 0,28% em junho.

Por outro lado, prossegue Braz, notam-se altas em serviços mais significativos em termos de sensibilidade à demanda geral, como Uber e salões de beleza.

Ele acrescenta que o resultado do IPCA de julho também “consolida os preços monitorados como grande motor da inflação este ano”.

Os preços administrados saltaram 1,68% em julho e acumulam impressionantes 13,5% em 12 meses. No ano até agora, a alta dos administrados, de 9,53%, é o dobro da elevação do índice cheio, de 4,76%.

“Isso ainda deve crescer, porque há grande risco de a agência reguladora promover mais um aumento na bandeira tarifária”, diz Braz. Ele menciona que ainda há risco de alta dos combustíveis, disseminando-se para gás de botijão.

Romão, por sua vez, destaca a elevação da média dos núcleos do IPCA de 0,54% para 0,59% entre junho e julho, e as pressões nos bens industriais, após “a enxurrada de pressões de custo no ano passado, que vieram do atacado industrial e que prosseguem este ano”.

Ele chama a atenção para o “descasamento importante entre oferta e demanda de componentes”, levando à alta, por exemplo, não só dos automóveis novos mas – sobretudo – dos usados. Aliás, repetindo o que vem ocorrendo nos Estados Unidos.

E ainda há o efeito da geada nos alimentos, cuja maior parte deve ficar para agosto (com compensação no sentido contrário de habitação e transportes este mês, segundo relatório de hoje da LCA).

A consultoria elevou a projeção de IPCA do ano de 7% para 7,5%, com serviços subindo 4,4% e bens industriais, 7,8%.

As más notícias no front da inflação, claro, estão batendo com força no Banco Central e puderam ser sentidas na ata da reunião de agosto divulgada hoje. Como notou em relatório sobre a ata o economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, o documento indica que “o BC agora está lutando para manter as expectativas inflacionárias sob controle”.

Se todo mundo achar que a inflação só sobe e o BC está de lado assistindo o estrago, o jogo está perdido. Schwartsman observou no relatório que isso ocorreu no Brasil há não muito tempo, no governo de Dilma Rousseff, e que o Banco Central parece empenhado em evitar que aconteça de novo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/8/2021, terça-feira.