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Inflação dura na queda

Silvia Matos, do Ibre, analisa a inflação de serviços, que parece ter interrompido sua trajetória de redução no terceiro trimestre.

Fernando Dantas

01 Novembro 2016 | 17h18

Na ata da reunião de outubro, o Copom deu bastante ênfase à “pausa recente no processo de desinflação dos componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária”. O problema é que esta pausa “pode sinalizar convergência mais lenta da inflação à meta”.

Como se sabe, esses componentes mais sensíveis são principalmente os serviços, cujas elevadas inflação e inércia têm sido há muito tempo uma das principais dores de cabeça dos dirigentes do Banco Central. Desta forma, mensurar e entender a tendência subjacente da inflação de serviços é uma tarefa à qual o BC deve estar dedicando bastante tempo e energia, e que, portanto, o mercado não pode ignorar.

Silvia Matos, que coordena a pesquisa macroeconômica conjuntural no Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), trabalhou recentemente com diferentes medidas da inflação de serviços do IPCA para chegar à conclusão que, de fato, houve uma parada recente na desinflação. Não é uma conclusão tão trivial quanto possa parecer à primeira vista, porque a tendência da inflação de serviços é muitas vezes obscurecida pela sazonalidade do setor, por componentes voláteis com grandes variações ou por itens que subiram por determinado acontecimento limitado no tempo, como a Olimpíada.

Um complicador adicional este ano é a mudança metodológica que afetou os empregados domésticos. Como o fim da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), o item passou a ser colhido da Pnad Contínua, na qual se julgou melhor que fosse estimado a cada mês como a alta duodecimal pró-rata do aumento do salário mínimo no ano.

O impacto da mudança foi significativo, no sentido de elevar o IPCA. Silvia nota que a alta acumulada em 12 meses no IPCA dos serviços domésticos foi de 9,5%, comparada a 6,3% caso fosse utilizada a coleta da FGV do mesmo item para o IPC da instituição.

No Relatório de Inflação de Setembro, o BC divulgou uma medida de núcleo da inflação de serviços que excluía serviços domésticos, turismo, comunicação e cursos. Assim, alguns itens “problemáticos” dos serviços ficam de fora, como os próprios serviços domésticos, as passagens aéreas com suas grandes oscilações e os hotéis afetados pela Olimpíada no caso do Rio. O novo núcleo abrange 64% da inflação de serviços do IPCA.

Para captar a tendência da inflação de serviços, Silvia analisou a evolução de três indicadores acumulados trimestralmente e anualizados, e que adicionalmente foram dessazonalizados: o índice cheio de serviços do IPCA, os serviços menos passagens aéreas e o novo núcleo do BC mencionado acima.

Nessa medida trimestral, dessazonalizada e anualizada, a inflação de serviços do IPCA passou de 6,2% no trimestre terminado em junho para 7,6% no trimestre encerrado em setembro. É uma subida forte, mas a economista nota que pode ter sido influenciada por fatores não tendenciais como os hotéis no Rio e a mudança metodológica do serviço doméstico. Os serviços sem passagem aérea subiram, na mesma medida já mencionada, de 6,8% em junho para 7,5% em setembro, mas podem ter sido puxados pelos mesmos fatores que impulsionaram o índice cheio dos serviços.

O problema, porém, segundo Silvia, é que o novo núcleo do BC dessazonalizado, em que teoricamente aqueles fatores não tendenciais estariam suprimidos, ficou estável entre segundo e terceiro trimestres, e até subiu ligeiramente, de 6,9% para 7%.

“A gente nota que, no terceiro trimestre, mesmo limpando os efeitos sazonais, a desinflação de serviços (medida pelo novo núcleo do BC) deu uma arrefecida e parou”, diz a economista.

Ela acrescenta que este núcleo, sempre trimestral, dessazonalizado e anualizado caiu de cerca de 9,5% em 2015 para o nível atual de 7%. No caso das duas outras medidas com o mesmo tratamento, o resultado não é muito diferente.

“É uma vitória, só que pela metade”, comenta a economista.

Em 2007, o novo núcleo do BC, medido da mesma forma, estava em aproximadamente 5%, e as outras medidas de inflação de serviços próximas a este patamar. Para Silvia, é provável que o BC queira se certificar de que a inflação de serviços voltará para esse nível do passado antes de se sentir mais confiante em promover um ciclo mais vigoroso de corte das taxas de juros. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/10/16, sexta-feira.