Inflação abaixo de 5% este ano?

Carlos Thadeu, da Asset1, que antecipou disparada da inflação em 2021, agora sai na frente em prever IPCA em 2022 mais baixo do que a média do mercado projeta.

Fernando Dantas

17 de fevereiro de 2022 | 21h48

No final de julho de 2021, quando a estimativa mediana do Focus para o IPCA de 2021 era de 6,6%, Carlos Thadeu, economista-sênior da gestora Asset1, previu que o índice chegaria a 8,5% no ano passado. Como se sabe, o IPCA foi até mais longe em 2021, para 10,38%. Mas Thadeu antecipou o agravamento do quadro inflacionário.

Agora, o economista está antecipando uma reversão mais rápida e intensa da elevada inflação corrente. A projeção mediana do último Boletim Focus divulgado para o IPCA de 2022 é de 5,5%, e subiu pela quinta semana consecutiva.

“Nossa projeção do IPCA em 2022 é de 5,1%, com chances de revisão para baixo de 5% nos próximos meses”, diz o especialista em inflação.

Na verdade, até novembro do ano passado, Thadeu estava bem pessimista. A sua previsão naquela época para o IPCA de 2021 era de 10,52% (levemente acima do resultado efetivo) e, para 2022, de 6,37%.

Recentemente, contudo, o economista e seus colegas na Asset1 notaram mudanças significativas no cenário inflacionário.

“A política monetária começou a fazer mais efeito e, de lá para cá, os juros subiram bastante”, ele diz de início, acrescentando que os efeitos do juro alto se intensificarão nos próprios meses. E ele cita também a surpreendente valorização recente do câmbio.

Na sua visão, a demanda mais fraca vai limitar o repasse das pressões de custos nos bens industriais, o que já começa a ocorrer (a projeção de crescimento do PIB em 2022 da Asset1 é de 0,2%, mas com viés levemente positivo, podendo ser ajustada até 0,5%).

Ele exemplifica com os veículos, que tiveram alta de preços de aproximadamente 30%, e cujas vendas agora sofrem com a queda sistemática da concessão de crédito direcionado para automóveis, já que as taxas subiram da faixa de 15-20% ao ano para 30%. Com fortes altas do IPVA e os carros usados ainda num nível de preço muito alto, a tentação de vendê-los aumenta. Nos Estados Unidos, nota Thadeu, a inflação dos automóveis novos já começou a ceder no CPI (índice de inflação ao consumidor).

Em relação a outros bens duráveis, como eletrodomésticos, o crediário já tem taxas na faixa de 80% ao ano e já se registra recuo na inflação (e até em preços) no atacado.

Em termos de alimentação, o economista aponta que, desde 2019, a retenção de fêmeas na pecuária (isto é, que não são abatidas) esteve em nível alto, o que pode gerar uma superoferta de carne bovina. A tendência era esperada para o segundo semestre deste ano ou 2023, mas profissionais da área já registram seus sinais. O aumento da oferta de carne compensa a pressão no mercado de grãos (via ração).

Segundo Thadeu, a produção de carne anual no Brasil caiu em média 5% nos últimos três anos, e pode subir de 8% a 10% em 2022. Outros fatores favoráveis são que a Austrália voltou ao mercado internacional de carne depois de um período de muito pouca exportação, e os preços dos suínos na China já retornaram ao nível pré gripe suína, o que põe pressão baixista nas proteínas como um todo.

Na seara energética, o economista projeta bandeira verde a partir de maio, o que levaria a um efeito de 1 ponto porcentual negativo na inflação do mês, que iria para -0,6%. Segundo recente relatório da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), os reservatórios do Sistema Integrado Nacional (SIN) estarão com 72% de armazenagem em abril, no final do período chuvoso (comparado a 44% no mesmo período de 2021 e 60% em 2020).

Os combustíveis, porém, continuarão a pressionar a inflação, mas Thadeu acrescenta que, na sua estimativa do IPCA não está levando em conta nenhuma das medidas de barateamento de gasolina, diesel etc. que estão sendo discutidas pelo Executivo e Legislativo, e que têm chances de acontecer.

Em relação ao serviços, o prognóstico do economista é que a inflação da parcela mais associada à atividade também será contida pela política monetária, restando como problema a parte inercial associada, por exemplo, aos IGPs.

Também muito importante, para ele, é a valorização recente do câmbio, que se aproxima de R$ 5, e que é potente em termos de definir custos. Thadeu nota que a política monetária mais apertada contribuiu para a apreciação do real e o mercado está retirando prêmio de risco em termos de resultado eleitoral, seja Bolsonaro ou Lula (o próprio Roberto Campos Neto, presidente do BC, comentou isso esta semana). Finalmente, diversos indicadores apontam uma situação mais favorável em relação aos gargalos logísticos.

A projeção de Thadeu é que a inflação acumulada em 12 meses desça o primeiro degrau mais relevante em maio (quando iria para 8,54%) e, a partir daí, caminhe para 5,1% (ou menos) até dezembro.

Mas ele frisa que, embutido nesse cenário, está a hipótese de que o Banco Central vai manter sua postura conservadora revelada recentemente, e não voltará atrás se e quando a inflação apresentar os primeiros sinais mais consistentes de alívio.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/2/2022, quinta-feira.