Inflação foi alta em 2020 – é muito grave?

2020 trouxe uma grande surpresa inflacionária relacionada a efeitos (alguns não esperados) da pandemia e das políticas públicas para combatê-la no Brasil e no mundo. Para 2021, há um forte desafio para o BC, mas analistas ainda veem inflação na meta.

Fernando Dantas

13 de janeiro de 2021 | 12h42

O IPCA, índice de inflação oficial do regime de metas, coroou o ano com mais uma forte surpresa altista em dezembro, quando registrou 1,35%, para fechar 2020 em 4,52%.

A pandemia naturalmente complicou muito a vida de quem projeta a inflação profissionalmente. Assim, as projeções do IPCA de 2020 tiveram um movimento de gangorra ao longo do ano passado. Tomando-se a mediana do Focus, começaram o ano em 3,6%, caíram até um mínimo de 1,52% em junho, e, agora em 8 de janeiro, logo antes de sair o IPCA de dezembro, estavam em 4,37%  – abaixo, portanto, do resultado oficial.

Em meados de 2020, quando a mediana do IPCA (de 2020) caiu para cerca de 1,5% no Focus, alguns analistas mais ousados chegaram a prever inflação abaixo de 1% no ano passado.

Em termos formais, qualquer resultado abaixo de 2,5% seria pior para o BC, pois ficaria abaixo do intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual (pp) em torno da meta do ano de 4%. Já o resultado final, de 4,52%, está confortavelmente no intervalo de tolerância.

No entanto, há que considerar que as metas são cadentes para os próximos anos – 3,75% em 2021, 3,5% em 2022 e 3,25% em 2022 – e que, em apenas seis meses, de julho a dezembro, o mercado foi surpreendido em relação a seus prognósticos em nada menos que 3 pontos porcentuais (pp), a diferença entre a projeção de 1,5% de junho e o resultado de 4,5% do ano.

Tudo indica, portanto, que há um problema inflacionário para o Banco Central, ainda mais levando em conta que a Selic está em 2%, e portanto o juro básico não só real, mas também nominal, está em franco território negativo.  Para completar, está sacramentado entre analistas e BC que o IPCA em 12 meses deve subir para as cercanias de 6% em meados de 2021, antes de supostamente recuar para mais abaixo ou próximo da meta de 3,75% em dezembro.

Se, à primeira vista, a impressão é de que o alarme inflacionário está soando em alto volume, uma análise mais detalhada indica que a situação, ainda que preocupante, não é desesperadora.

A surpresa inflacionária do ano passado não é difícil de entender – depois de ocorrida, claro. No final do segundo trimestre, a impressão é de que a economia ruiria muito mais com a pandemia do que o de fato viria a ocorrer. Houve deflações substanciais do IPCA mensal, e o cenário era de terra arrasada na atividade, tragando para baixo todos os preços.

Vários fatores interligados impediram que isso acontecesse. O auxílio emergencial e outros programas fizeram com que a renda subisse, em vez de cair. Fenômenos semelhantes ocorreram em outros países. A China e outros países orientais superaram de forma surpreendentemente veloz o pior da pandemia. A vacina veio mais rapidamente do que se imaginava no início.

Esses fatores combinados puseram as commodities em alta. As principais matérias-primas agrícolas ainda estão se elevando, o petróleo recuperou-se do mergulho inicial e o minério de ferro e outros metais também subiram com vontade.

Por diversos motivos, entretanto, o dólar teve alta em relação ao resto das moedas. E, no caso de países emergentes com significativas fragilidades macroeconômicas, como o Brasil na parte fiscal, a aversão ao risco provocada pela pandemia intensificou a desvalorização.

A combinação, incomum para o Brasil, de commodities em alta e real sofrendo uma fortíssima desvalorização levou os índices de preços ao atacado e produtor a níveis elevadíssimos, que não se viam há muito tempo.

A consequência principal dessa combinação de fatores para o IPCA foi um fortíssimo choque de alimentos em 2020. A alimentação domiciliar subiu estratosféricos 18,15% no ano passado e, segundo o economista André Braz, especialista em inflação do Ibre/FGV, o item “alimentação e bebidas” explica 60% de toda a inflação de 2020.

Já em relação a dezembro, a bandeira vermelha patamar 2 decretada pela Aneel responde, segundo Braz, por 0,4 pp da inflação de 1,35% no mês passado. Como se voltou à bandeira amarela em janeiro, esse efeito com certeza é transitório.

Para 2021, o Focus aponta IPCA de 3,34%, confortavelmente abaixo da meta de 3,75%.

Mas vários analistas veem uma situação bem mais apertada. Na verdade, há muita incerteza e vários fatores poderão influenciar significativamente o resultado do ano.

A persistência do choque de alimentação é um deles. Não se espera de forma alguma a repetição do ocorrido em 2020, mas Braz, por exemplo, acho que o mercado está com uma visão de dissipação do choque rápida demais, levando em conta a volatilidade do câmbio, que voltou para R$ 5,4, e a força das commodities neste início de ano.

Já Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, vê alta de cerca de 4% na alimentação fora do domicílio em 2021, com risco de ser menor – se ocorrer, um ponto favorável para o BC.

O efeito na atividade e na inflação do fim do auxílio emergencial é outro fator crucial.

Braz e Rocha frisam que os serviços se mantiveram excepcionalmente desinflacionados em 2020, por razões óbvias. Mesmo voltando a um comportamento mais normal em 2021, devem permanecer como um fator benigno em termos inflacionários.

Mais preocupante, nota Rocha, são os preços administrados, que foram represados em 2020, como no caso de medicamentos, planos de saúde e transporte urbano. Isso pode levar a altas compensatórias este ano.

Nos bens duráveis, há ainda há muita inflação dos índices de preço ao produtor e atacado que não chegou ao consumidor, um problema que se torna mais agudo se o real permanecer tão desvalorizado e volátil.

Tanto Braz quanto Rocha veem inflação cravada na meta em 2021, 3,75% no caso do primeiro, 3,8% no do segundo, mas com risco de chegar a 4%.

Na verdade, mais que um problema inflacionário, o BC tem um problema de elevadíssima incerteza. É dado como certo que a Selic vai se elevar durante este ano, tendo em vista as metas de inflação de 2022 e 2023. O cenário ideal é que isso ocorra de forma gradual e tranquila. Mas não se descarta que uma piora mais aguda do cenário inflacionário possa levar a um movimento mais drástico.

No pano de fundo, a volta ao ajuste fiscal estrutural gradativo – que estava em curso e foi interrompido pela pandemia – poderia fortalecer o real e ajudar o BC. Mas, como todo mundo sabe, essa é outra enorme incerteza.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/1/2021, terça-feira.