Inflação, gasolina, loterias

Inflação permanece em níveis extremamente tranquilos, e discussão é sobre impactos de possível mudança ocorrida na sistemática de reajuste de combustíveis pela Petrobrás e de pedido da Caixa para aumentar jogos lotéricos. Conversei com Carlos Thadeu de Freitas Filho, economista-chefe da Ativa Investimentos, em São Paulo.

Fernando Dantas

22 de julho de 2019 | 10h15

Dois temas estão no foco no momento em termos de inflação: a determinação dos preços de combustível pela Petrobrás e a demanda da Caixa ao governo para reajustar o preço dos jogos lotéricos. O primeiro contribui para reduzir a inflação e o segundo, o contrário.

Como explica Carlos Thadeu de Freitas Filho, economista-chefe da Ativa Investimentos, em São Paulo, percebeu-se recentemente uma mudança no critério de ajuste pela Petrobrás dos preços dos combustíveis no mercado doméstico.

Como se sabe, os parâmetros são o preço internacional e a taxa de câmbio. Embora essas duas frentes tenham sido favoráveis à queda do preço da gasolina e de outros combustíveis no mercado interno recentemente, Thadeu nota que a sistemática de reajustes “está meio diferente do que estava acontecendo antes – é como se a margem de lucro estivesse menor, com um desconto maior para o preço doméstico em relação ao externo”.

O economista observa que não necessariamente isso significa que a Petrobras esteja se desviando dos seus objetivos de busca do lucro, porque a mudança pode ser vista como estratégica na briga por market-share com o etanol. Nos últimos 12 meses até maio, segundo a PMC, o consumo de combustíveis e lubrificantes caiu 3%, mas o de etanol cresceu 30%, o que é uma indicação de que este último está tirando espaço da gasolina.

“Estamos no meio da safra de etanol, os preços estão caindo, acho que a postura da Petrobrás gera concorrência, ajuda a reduzir a inflação e quem ganha é o consumidor”, diz Thadeu, ressalvando que parte do alívio nos preços de combustíveis vem do preço no mercado externo e do câmbio.

Neste último caso, ele nota que há mérito interno, já que a aprovação da reforma da Previdência na primeira votação na Câmara e a expectativa de aprovação final, com uma economia fiscal considerável preservada, contribuíram para a valorização do real.

Na sua estimativa, a gasolina deve cair 5,6% de junho a setembro, o que significa uma redução de 0,22 ponto porcentual do IPCA no ano.

No caso dos jogos lotéricos da Caixa, a demanda é por reajustes bastante altos, variando de 30% a 62%, com uma média de 32%, segundo o economista da Ativa. O peso do item na cesta do IPCA é de apenas 0,44%, mas como o reajuste é muito elevado, o impacto na inflação anual chegaria a 0,15 ponto porcentual.

O assunto ainda está sob avaliação do Ministério da Economia, e Thadeu crê que uma decisão não saia antes de 30 dias.

A sua projeção de IPCA para 2019 é de 3,6%, se houver aumento dos jogos lotéricos da Caixa, e de 3,45%, se não houver.

Em relação aos fatores mais constitutivos do processo inflacionário, como a inflação de serviços, Thadeu vê um cenário muito benigno. Na sua estimativa, a inflação de serviços deve ficar em 3,4% em 2019, muito próxima dos 3,35% de 2018, e bem abaixo da meta da inflação.

Ele enxerga três fatores nesse bom comportamento da inflação de serviços. O primeiro, o mais conhecido, é a fraqueza da economia brasileira e o grande hiato do produto que perdura. O segundo, mais global, são inovações tecnológicas, como Airbnb e Uber, que estão colocando pressão sobre serviços tradicionais como hospedagem e transporte urbano.

O terceiro é o fato de o mau desempenho da economia nacional ser particularmente acentuado no Rio de Janeiro, por causa da crise fiscal do Estado. Isso está provocando pressões baixistas no Estado em itens como hotéis, aluguéis, seguros de automóveis etc., que estão tendo algum impacto no contexto nacional. Recente levantamento de Thadeu indica que os Estados estrangulados em termos fiscais tendem a estar pior em termos de atividade econômica e têm menor inflação de serviços

“O BC tem uma grande avenida para baixar a Selic”, diz o economista da Ativa. Ele crê que, numa primeira etapa, o Copom traga a taxa básica a 5,5% (dos atuais 6,5%). Porém, como a economia ainda assim não deve reagir de forma satisfatória – na visão de Thadeu –, ele acha que o BC retomará os cortes e levará a Selic para 5% no fim deste ano ou no início de 2020.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/7/19, sexta-feira.