Inflação heterogênea

Variação da inflação de serviços entre Estados pode estar ligada a presença do petróleo na economia estadual, entre outros fatores. Conversa com Carlos Thadeu de Freitas Filho, economista-chefe da Ativa Investimentos.

Fernando Dantas

07 de novembro de 2019 | 16h38

Carlos Thadeu de Freitas Filho, economista-chefe da Ativa Investimentos, vem estudando as discrepâncias regionais na inflação de serviços. E elas têm sido muito substanciais.

Thadeu encontrou uma correlação bem clara entre a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) nos Estados e a inflação de serviços (no caso, na região metropolitana das capitais): quanto pior a PMC, menor a inflação e vice-versa.

Mais especificamente, o economista usou a diferença entre o nível da PMC em agosto de 2019 e em julho de 2014 (isto é, agora e logo antes do início da recessão), como uma aproximação da demanda de serviços. Ele constatou que, quanto pior o Estado nesse indicador, mais tende a ter uma baixa inflação de serviços “elásticos” nos últimos 12 meses.

Esses serviços elásticos são aqueles que, ao contrário de itens essenciais como saúde, educação e aluguel, o consumidor tem condições de substituir ou deixar de consumir quando o bolso aperta. Alguns exemplos são passagens aéreas, cinema, TV por assinatura, hotéis, refeição fora de casa etc.

A lógica indica que os preços desses serviços são aqueles que especialmente sofrem pressão para baixo de uma fraca demanda, e é isto mesmo que os números colhidos por Thadeu indicam.

Assim, Ceará, que teve uma das menores inflações dos serviços elásticos nos últimos 12 meses (na região metropolitana da capital, como os demais dados desta coluna para a inflação), de apenas 2,6%, apresenta um nível de PMC em agosto de 2019 que ainda estava 4,7% abaixo do patamar pré-recessão de julho de 2014.

No outro extremo, Minas Gerais, que apresentou inflação de serviços flexíveis de 4,5% nos últimos 12 meses, teve um salto de 12,2% no nível da PMC naquele período.

Num nível intermediário, Mato Grosso do Sul registrou 3,1% de inflação de serviços e uma elevação do nível da PMC de 4,9% no período considerado.

A próxima etapa da investigação de Thadeu, na qual está recebendo ajuda de Vilma Pinto e Samuel Pessoa, do Ibre/FGV, é tentar entender por que a demanda por serviços têm variado tanto entre os Estados.

Uma das hipóteses iniciais, que calha muito bem com o caso do Rio de Janeiro, é que a crise fiscal possa estar drenando a demanda dos Estados afetados. Mas Minas e Rio Grande do Sul, que também têm sérios problemas fiscais, mostram recuperação da PMC e inflação de serviços elásticos mais alta: no caso gaúcho, de respectivamente 7,4% (agosto de 2019 comparado com julho de 2014) e 3,9%.

Nesses casos, uma possibilidade, também sendo investigada, é de que o setor privado seja particularmente importante nessas economias estaduais, comparado ao público.

Estados afetados pela indústria e receitas petrolífera, com a queda do preço do barril nos últimos anos, também podem estar sendo prejudicados, assim como aqueles que dependem de commodities alimentícias podem ter sido beneficiados pelo bom desempenho do setor agropecuário.

No primeiro caso, estaria o Espírito Santo, que apesar da casa fiscal em ordem, está com o nível de PMC ainda 1% abaixo do patamar pré-recessão, e inflação de serviços elásticos em 12 meses de 3,2%. No segundo, ajudaria a explicar o desempenho relativamente bom (em termos de recuperação da PMC, mas com inflação de serviços elásticos um pouco mais alta), de Rio Grande do Sul e Paraná.

De qualquer forma, a pesquisa sobre as diferenças regionais na inflação de serviços empreendida por Thadeu levanta diversas questões. Uma delas, ele coloca, é que a Selic apropriada para São Paulo pode não necessariamente ser suficiente para reanimar a economia fluminense, por exemplo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/11/19, quarta-feira.

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