Inflação nos EUA assusta

Inflação americana vai a 4,2% em abril (comparação com abril de 2020). Mercado reage com queda nas bolsas e alta do dólar e da rentabilidade dos títulos do Tesouro americano. Mas ainda é cedo para se alarmar.

Fernando Dantas

12 de maio de 2021 | 21h53

O CPI (índice de inflação ao consumidor) dos Estados Unidos em abril surpreendeu para cima, atingindo 4,2% em relação ao nível de um ano antes.

Os mercados reagiram, naturalmente: as principais bolsas do mundo em queda (incluindo a Bovespa), o dólar em alta, e elevação da rentabilidade dos títulos do Tesouro americano, com destaque para o de dez anos, referencial global das taxas de juros.

O pano de fundo, claro, é a questão de vários trilhões de dólares: os gigantescos pacotes fiscais do presidente Joe Biden provocarão pressões inflacionárias duradouras na economia americana?

Ou estamos diante de um pico de inflação temporário, ligado a diversos choques que atingem os Estados Unidos e outros países, mas que vai se desfazer, levando os índices de preços de volta para níveis próximos à meta de longo prazo de 2% do Fed, banco central americano?

Segundo Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos em São Paulo, o CPI de abril não deve mudar a posição de quem está envolvido no debate acima.

Quem aposta na volta da inflação mais problemática verá o índice como mais um sinal na mesma direção. Quem, contudo, crê num choque temporário, não será convencido do contrário.

Nesse segundo caso, a razão é que a alta do CPI em abril tem diversas marcas de eventos atípicos ligados à saída da pandemia, que não configuram pressão inflacionária clássica, pelo lado da demanda.

Por exemplo, Sobral nota que os carros usados subiram 10% de preço entre março e abril, o que pode ter a ver com entraves logísticos para a oferta de carros novos – e certamente não configura uma tendência de inflação de longo prazo.

Samuel Pessoa, chefe de pesquisa econômica do Julius Baer Family Office e pesquisador associado do Ibre/FGV, observa que o pico do CPI norte-americano, segundo algumas projeções, pode chegar até a 7% em dois ou três meses.

Porém, segundo a visão mais comum, a alta se reverte, ou “é devolvida”, no jargão do mercado financeiro.

Como Sobral, ele diz que “é possível que essa alta seja em parte fruto desse monte de gargalo que está aparecendo”.

Recente coluna neste espaço, com números de Aloisio Campelo, coordenador das sondagens de confiança no FGV-Ibre, ilustra o fenômeno no caso brasileiro: um número recorde de empresas industriais reporta falta de insumos como um entrave à produção.

Pessoa explica que a pandemia levou as pessoas, isoladas em casa, a, de certa forma, “produzir domesticamente serviços que deixaram de consumir fora de casa”.

E, nesse processo, foi gerada uma forte demanda por bens. Assim, em vez de ir a restaurantes, muitos passaram a caprichar mais na comida em casa, e renovaram suas cozinhas e respectivos utensílios.

Impossibilitados de ir à academia, “malhadores” compraram esteiras e outros equipamentos para se exercitar em casa. O “home office”, por sua vez, exigiu um upgrade em mobiliário, computadores, celulares etc.

Nos Estados Unidos, em particular, os programas de apoio financeiro a famílias em função da pandemia estão sendo renovados ou continuados com larga generosidade, como parte do “Bidenomics”.

É possível, acrescenta Pessoa, que a combinação de suporte financeiro, um resquício de medo do coronavírus e a espera por melhores postos esteja retardando a volta de um contingente expressivo ao mercado de trabalho.

Porém, como todos estão consumindo, isso pode contribuir para o descompasso entre demanda (maior) e oferta ainda restrita.

Obviamente, o choque inflacionário nos Estados Unidos, como em todo o mundo, também é composto pela forte alta global das commodities.

Um detalhe tranquilizador sobre o CPI de abril é que o núcleo chamado de mediana ponderada do CPI, cuja relevância foi destacada recentemente pelo staff do FMI, está bem comportado, permanecendo em 0,1% ao mês de novembro a janeiro; e 0,2% de fevereiro a abril.

É importante notar também que o índice mais importante para o Federal Reserve (Fed, BC dos EUA), ao qual referencia sua meta, não é o CPI, mas sim o núcleo por exclusão de alimentos e energia do deflator do consumo no PIB, chamado de PCE.

Pessoa enfatiza que o Fed “avisou e reiterou que não vai responder a um pico inflacionário, que só responderá se a inflação permanecer de forma consistente acima da meta”.

A grande questão, portanto, é saber se, após o pico, a inflação norte-americana vai recuar para os baixos níveis prévios à pandemia.

Pessoa admite que é muito difícil fazer uma previsão sobre isso.

“A gente está entrando num experimento fiscal que não ocorre desde a segunda guerra mundial e não sabemos o que vai acontecer, a incerteza é imensa”, diz o economista.

Segundo Pessoa, será preciso esperar todo o ano de 2021, em que não haverá movimentos de taxas de juros pelo Fed (ora na faixa de zero a 0,25%), para avaliar e, 2022 até que ponto o pico inflacionário foi ou não temporário.

Se a inflação e as expectativas voltarem para próximo da meta do Fed em 2022, o experimento terá sido bem sucedido no front inflacionário. Porém, se ficar num nível significativamente mais alto que a meta, o economista pensa que o ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos poderia ser antecipado e se iniciar no próximo ano, possivelmente no segundo semestre.

Quanto à reação do mercado hoje ao CPI de abril, Sobral, da NEO Investimentos, sintetiza: “Na dúvida, o mercado interpreta o ruído como informação”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/5/2021, quarta-feira.