Inflação pode atrapalhar alta do investimento

Fernando Dantas

23 de dezembro de 2011 | 13h04

Segue minha coluna na AE-News/Broadcast, da quarta-feira, 21/12. 

Para os economistas Felipe Salto e Rafael Cortez, da consultoria Tendências, o ponto central da agenda econômica da presidente Dilma Rousseff é derrubar os altos juros brasileiros. Em recente relatório, eles afirmam que “no campo do imaginário político (que ignora as complexidades das relações econômicas), FHC seria o governo da estabilização, Lula, o da inclusão social, e Dilma, a presidente que ‘derrubou’ os juros'”.
 
Para os dois economistas, apesar de encoberto durante a campanha eleitoral, o desenvolvimentismo de Dilma apareceu e cresceu a partir do momento em que ela começou a governar. Nesse sentido, surgiu uma nova “harmonia” entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda, com a política de juros, anteriormente reservada exclusivamente à primeira instituição, passando a ser pactuada entre os dois principais polos de poder da política macroeconômica.
 
Outro aspecto da gestão econômica de Dilma, para os economistas, é o nacionalismo, com acusações de “guerra cambial” lançadas contra outros países, intervenções no mercado de derivativos e tentativa de manter uma taxa de câmbio competitiva – tudo em nome da defesa da indústria nacional. Ambiciosamente, a presidente quer acelerar o crescimento sem perder controle da inflação, que será combatida mais pela expansão da oferta – leia-se investimentos – do que pela contenção da demanda. E o Estado assume a liderança estratégica do desenvolvimento.
 
Partindo de todos os pressupostos dessa análise, Salto e Cortez tentam verificar até que ponto o objetivo de Dilma de fazer um “governo da oferta” é viável. Em outras palavras, eles tentam verificar se é possível expandir a oferta mantendo o elevado consumo característico dos últimos anos. Mais especificamente ainda, os economistas querem ver se é possível ter uma trajetória de juros que simultaneamente controle a inflação e permita o aumento de investimentos.
 
Utilizando um modelo alimentado por informações como taxa de investimentos, confiança do consumidor, risco Brasil, investimentos públicos, desembolsos do BNDES à indústria e juros reais, Salto e Cortez investigam a formação dos investimentos privados e dos investimentos totais. A questão final é a de saber como a política econômica pode estimular os investimentos, elevando a taxa de formação bruta de capital fixo para 24% do PIB.
 
Num primeiro passo, os dois profissionais da Tendências indicam uma verdade quase óbvia, de que juros mais baixos estimulam o investimento privado, mas vão além disso: eles quantificam este efeito e chegam a números que confirmam que o cenário otimista de taxa de juros que o governo traçou de fato “entrega” a taxa de investimentos pretendida. Ou, para ser mais preciso, chega quase lá.
 
Assim, as simulações mostram que uma trajetória que derruba a Selic para 9% em 2013 e a mantém neste patamar em 2014 aponta para uma taxa de investimentos ao final do governo Dilma de 22,7% do PIB, num salto de quase quatro pontos porcentuais em relação aos 19% de 2011. Já seria uma taxa de investimento respeitável, que poderia sustentar um ritmo de crescimento mais ambicioso, talvez algo em torno dos 5% que a Fazenda almeja como ritmo de cruzeiro para o Brasil no médio prazo. Nesse cenário, a taxa real de juro já cai abaixo de 3% ao final de 2012, e fica abaixo deste nível até o fim do governo Dilma.
 
Infelizmente, porém, Salto e Cortez não apostam nessa trajetória virtuosa. Eles fazem uma segunda simulação, na qual a Selic volta a subir em 2013 por causa de pressões inflacionárias, e termina o mandato da presidente em 12,5%. Neste caso, a taxa de investimentos sobe para apenas 20,3% em 2014, com uma evolução muito pequena, de pouco mais de um ponto porcentual, no governo Dilma. A taxa de juro real, por sua vez, cai abaixo de 3% no quarto trimestre de 2012, mas volta a ficar acima de 6% em 2014.
 
O problema básico, para os economistas da Tendência, é que, para garantir o cenário virtuoso de taxas de juros, que significa uma política monetária fortemente expansionista, o governo deveria fazer um esforço redobrado na política fiscal. Sem isso, eles preveem que a inflação volte, obrigando o BC a subir o juro mais adiante.

Diante do quadro complicado das contas públicas, em que o bom resultado de 2011 deveu-se a fatores que não devem se repetir – ajuste real zero do salário mínimo e queda nos investimentos públicos -, eles acham que o esforço tem de ser feito em cima do custeio e, principalmente, das despesas de pessoal.
 
Salto pensa que uma solução possível seria limitar o crescimento das despesas de pessoal à metade da expansão do PIB para os próximos anos, o que faria com que elas se retraíssem como proporção do produto, dando lugar a mais investimentos públicos ou a superávits primários maiores. Mas ele está cético em relação à disposição do governo de pagar esse preço político, mesmo porque a visão desenvolvimentista pode considerar que não é necessário o sacrifício – juros em queda, investimento em alta e inflação controlada seriam possíveis mesmo sem um aperto adicional na trajetória das contas públicas.

Tudo o que sabemos sobre:

2012BrasilInflaçãoInvestimento

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.