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Inflação zero no radar?

IPCA-15 de abril, com deflação de 0,01%, traz elementos que dão confiança aos analistas com projeções de queda da inflação extremamente agressivas para 2020: já se fala de um IPCA no ano entre 0,5% e 1%, e a inflação zero "entrou no radar".

Fernando Dantas

29 de abril de 2020 | 11h04

Em matéria de 28/4, terça-feira, de Thaís Barcelos para o Broadcast, o economista João Fernandes, da Quantitas Asset, projetou IPCA de 1% este ano, o menor desde o Plano Real. É um tipo de aposta que começa a surgir em algumas casas do mercado financeiro, descendo até mesmo a 0,5%. Inflação zero em 2020 já “está no radar”, segundo uma fonte com trabalho voltado aos índices de preços.

Obviamente, está ligado à prevista recessão por causa da Covid-19, que pode atingir um recuo de 5% do PIB este ano ou até pior.

Mas será que a inflação vai cair tanto?

No último relatório Focus, a previsão mediana para o IPCA era de 2,2%. Há sete semanas a projeção vem caindo. Há um mês, estava em 2,94%. Na mediana dos Top 5 Médio Prazo, o número já caiu para 1,56%.

As projeções do Focus costumam se deslocar mais vagarosamente do que a percepção de muitas casas importantes, porque as mudanças (no Focus) acontecem à medida que as instituições vão gradativamente cumprindo seu calendário de revisões. Isso não quer dizer, entretanto, que a projeção mediana de mercado vá caminhar necessariamente até as apostas mais agressivas mencionadas acima.

Mas o IPCA-15 de abril de -0,01%, divulgado hoje, trouxe elementos promissores para quem aposta numa inflação de 1% ou menos este ano.

Como aponta um analista, houve uma “queda histórica e colossal” de bens industriais, liderada por eletroeletrônicos, que sofrem uma contração de mais de 80% nas vendas, segundo a Cielo, por causa da quarentena. O grupo “eletrodomésticos e equipamentos” recuou 7,15% e os preços de refrigeradores caíram 8,75%, movimentos de dimensão bastante atípica para este gênero de bem.

E nem é exatamente o tipo de produto que se imagina intuitivamente que vá sofrer mais com o isolamento social, o que geralmente é associado aos serviços. Mas o recuo no consumo e no preço dos bens duráveis pode estar sendo afetado, além de pelo impacto direto da quarentena, pela enorme insegurança econômica que a crise do coronavírus está causando.

Os serviços variaram 0,29% no IPCA-15 de abril, e 0,06% excluindo passagens aéreas, que subiram 14,83%. Mas há uma defasagem grande na coleta de passagens aéreas, o que explica que o preço não tenha ainda sido afetado. Em maio e junho, esse item volátil e de grandes variações pode ter quedas em torno de 25%, de acordo com algumas previsões, puxando para baixo os serviços.

Adicionalmente, a queda dos preços da educação deve se captada intensamente em agosto. Com a crise, muitas escolas estão dando descontos, inclusive por determinação legal em vários Estados.

E, infelizmente, espera-se que muitas empresas de serviços quebrem – com destaque para o setor de turismo, como hotéis, agências de vendas de pacotes e passagens, restaurantes –, levando a preços de liquidação.

O destaque inflacionário no IPCA-15 de abril foi o grupo ‘alimentação e bebidas’, com alta de 2,46%, associada à corrida às compras para fazer estoques de quarentena. A experiência de outros países mais avançados na curva de disseminação do coronavírus, entretanto, sugere que esses aumentos iniciais dos alimentos e bebidas tendem a ser “devolvidos” depois de algum tempo. Assim, o grupo não deve representar pressão inflacionária relevante no ano.

Quanto à disparada do câmbio, na visão dos que têm apostas mais agressivas de queda de inflação em 2020, só haverá repasse inflacionário quando a economia engatar uma retomada após a queda livre provocada pelos efeitos econômicos da pandemia – o que fica para 2021 (tomara).

Prever inflação em torno de 1% (ou até menos) em 2020, porém, não é sinônimo de acreditar que a Selic vai para o mesmo nível até o final do ano. Uma das razões é que a inflação pode voltar a subir em 2021, que já vai se tornando horizonte relevante para a política monetária.

Em 2021, muitos impulsos desinflacionários atuais podem ser revertidos. O preço do petróleo desabou – os combustíveis recuaram 5,41% no IPCA-15 de abril, levando o item ‘transportes’ à deflação de 1,47% –, mas a previsão é de que se recuperem. Também há tendência este ano de repressão de aumentos de tarifas, que pode incluir eletricidade, para ajudar famílias e empresas. O represamento pode levar a altas maiores em 2021.

Finalmente, trabalha-se com a hipótese de recuperação da economia brasileira e global em 2021, embora as incertezas sejam imensas e a possibilidade de retomada em “W”, com novos recuos, não esteja descartada.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/4/2020, terça-feira.

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