Influência chinesa na África

Fernando Dantas

02 de abril de 2015 | 16h54

A presença cada vez maior da China na África, além das óbvias motivações estratégicas chinesas em termos de garantir a oferta de matérias-primas no longo prazo, também coloca questões sobre disputas entre modelos de desenvolvimento. Como observa em recente artigo o economista Artur Colom-Jaén, da Universidat Autònoma de Barcelona e da SOAS University of London (focada na pesquisa sobre Ásia, África e Oriente Médio), “além da presença econômica direta, a China certamente está exercendo uma influência significativa na formulação de políticas de desenvolvimento na África”.

O economista nota que há uma percepção de que o Consenso de Washington, baseado em políticas de liberalização econômica, privatização e redução do papel do Estado, não foi bem sucedido em promover o desenvolvimento africano. Nos anos 80 e 90 (a expressão Consenso de Washington foi criada em 1989, mas se referia a uma abordagem que já existia), diversos países da África se viram forçados a implementar programas de ajuste estrutural do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas os problemas de endividamento externo, fuga de capitais e pobreza aumentaram.

Segundo Colom-Jaén, culpar com exclusividade o Consenso de Washington e os programas do FMI pelos revezes da África é exagero, já que a precariedade institucional, a corrupção e a falta de compromisso das elites locais com o desenvolvimento são bem conhecidas. Ainda assim, a visão mais geral seria a de que a receita liberal e ortodoxa do Ocidente ficou aquém das necessidades do continente.

É nesse contexto que entra a influência ideológica chinesa. Já em 2004, o jornalista Joshua Cooper Ramo, atualmente vice-chairman da consultoria do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, cunhou a expressão “Consenso de Beijing”, em proposital contraposição ao “Consenso de Washington”. A ideia do novo consenso ao estilo chinês é dar maior preponderância ao papel do Estado, à soberania e à geopolítica, ao mesmo tempo em que se substituem as receitas prontas (que os seus adversários atribuem ao Consenso de Washington, o que possivelmente é injusto) por maior experimentalismo em termos de política econômica, com a busca constante por inovações e novos caminhos.

Um aspecto mais concreto da influência da China na África, lembrado por Colom-Jaén em seu artigo, é a criação de zonas econômicas especiais – copiadas da nação asiática – em países como Etiópia, Nigéria, Egito, Zâmbio e Ilhas Maurício. O objetivo é atrair capital estrangeiro para, em combinação com empresas locais, estabelecer indústrias voltadas à exportação de maior teor tecnológico. O pano de fundo é combater a desindustrialização e inserir as indústrias africanas nas cadeias produtivas globais.

O pesquisador nota que a influência chinesa na África vem acompanhada de pesados investimentos do país asiático no continente vizinho, que ganharam força a partir do final dos anos 90. As principais áreas são petróleo e mineração, e os países mais envolvidos são Angola, Sudão e Zâmbia. A ofensiva da China também inclui crédito barato para projetos de infraestrutura.

Porém, de acordo com Colom-Jaén, “os países africanos não estão adotando esse arcabouço de políticas para emergentes (o Consenso de Beijing) à força, como uma condição para os créditos chineses”. O pesquisador considera que se trata mais da influência do modelo de um parceiro cada vez mais forte no continente (e, aliás, um modelo que se provou extremamente bem sucedido no caso da própria China). Ele lembra também que o envolvimento da China na África é anterior à abertura ao capitalismo de Deng Xiaoping no final dos anos 70, e que houve investimentos (ferroviário, por exemplo) e programas de ajuda nas décadas de 60 e 70.

De qualquer forma, a expansão mais forte dos negócios, interesses e influência da China na África deu-se justamente a partir da década passada, coincidindo com o superciclo de matérias-primas que – como na América do Sul – deu grande impulso a muitas economias africanas. É preciso ver até que ponto o Consenso de Beijing – que parece mais nebuloso, pelo menos na forma como foi sintetizado por Cooper Ramo, do que o de Washington – resistirá num momento de ventos contrários e de necessidade de duros ajustes econômicos, que dificilmente escapam da tradicional receita ortodoxa e liberal. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 31/3/15, terça-feira.

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