Início de ano ruim para os serviços

Queda dos serviços em dezembro é aperitivo do que pode vir em janeiro, com os efeitos sobre a circulação das pessoas da segunda onda, associados ao fim do auxílio emergencial e à corrosão inflacionária dar renda.

Fernando Dantas

18 de fevereiro de 2021 | 08h41

Ao contrário do varejo, cujos resultados foram divulgados ontem (10/2, quarta-feira), e proporcionaram uma fortíssima surpresa negativa para o mercado, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), anunciada hoje (11/2), veio perto das estimativas dos analistas. Ambos as pesquisas referem-se ao mês de dezembro, e, portanto, trazem os números fechados de 2020.

Em relação a novembro (todas as comparações nessa base são dessazonalizadas), o volume de serviços recuou 0,2%. O resultado foi um pouco melhor que a mediana do Projeções Broadcast, de -0,3%. Ante dezembro de 2019, houve recuo de 3,3%, precisamente a mediana do Projeções Broadcast.

No ano, os serviços recuaram 7,9%, um tombo mais do que esperado como consequência do peculiar perfil da recessão da pandemia – aliás, não só no Brasil, mas mundo afora.

As quarentenas e isolamento social voluntário impediram o consumo de serviços tanto pelo lado da demanda quanto da oferta, já que, durante períodos variados, mas longos, muitos estabelecimentos, como restaurantes, bares, salões de beleza, shopping centers etc., ficaram fechados.

Segundo dados de Aloisio Campelo, superintendente de Estatísticas Públicas do Ibre-FGV, na mediana das nove recessões brasileiras anteriores à do ano passado, o recuo dos serviços foi de apenas 1,8%. Já na recessão da pandemia em 2020, houve uma queda (máxima) de 11%.

O grande problema, entretanto, é que a segunda onda, combinada com o ritmo lento de vacinação – não só no Brasil, mas na maioria dos países, com algumas exceções – está recriando o mesmo problema nos serviços em 2021, e dezembro pode ter sido um aperitivo.

É claro que a escala é bem menor. Não há até agora nada que se assemelhe às restrições oficiais e efetivas à mobilidade implantadas de março até maio do ano passado.

Ainda assim, o efeito não é trivial. Luana Miranda, especialista em atividade do Ibre-FGV, nota que a segunda onda já teve impacto nos serviços em dezembro, como se nota nos resultados particularmente ruins das categorias mais sensíveis ao distanciamento social, como os transportes e os serviços prestados às famílias.

Nessa segunda categoria estão os serviços de alojamento e alimentação, que incluem restaurantes, bares, hotéis e pousadas.

Os serviços prestados às famílias recuaram 3,6% em dezembro, na comparação com novembro, depois de terem crescido 8,5% em novembro, ante outubro. Já os transportes recuaram 0,7% em dezembro, depois de terem avançado 1,6% em novembro, no mesmo tipo de comparação.

Em 2020, os serviços prestados às famílias recuaram 35,6%, e os transportes caíram 7,7%.

Segundo um experiente gestor de recursos do Rio, os serviços como um todo podem piorar em janeiro. O mesmo pode ocorrer com o varejo.

O gestor cita os fatores principais que estão freando a atividade econômica nos últimos meses: fim do auxílio emergencial, alta da inflação (especialmente de alimentos) e a segunda onda da Covid-19.

Uma questão técnica adicional está ligada a problemas de medição da sazonalidade na série do varejo, que podem ter exacerbado o resultado negativo de dezembro ante novembro.

De qualquer forma, em termos de auxílio emergencial, o pior deve ter vindo a partir de janeiro, já que, em dezembro, ainda foram feitos desembolsos substanciais (desde setembro, o benefício foi reduzido à metade).

Porém, particularmente em relação aos serviços, é a segunda onda que está pesando muito neste início do ano, na sua avaliação. E esse efeito começou no final do ano passado.

Os indicadores de mobilidade do Google indicam que houve redução da movimentação de pessoas em dezembro, que se aprofundou em janeiro.

Cidades importantes do centro econômico do País, como São Paulo e Belo Horizonte, tiveram medidas oficiais de restrição de mobilidade bastante significativas no mês passado. Em diversas outras cidades também houve restrições, mesmo que menos severas.

Como nota o gestor, “as pessoas iniciaram o ano com as imagens da falta de oxigênio em Manaus e hospitais lotados em várias cidades importantes”. Isso estimulou, naturalmente, o isolamento social voluntário.

Ele acrescenta que a correlação entre restrições à mobilidade e redução do consumo de serviços se provaram muito fortes durante a pandemia. Assim, uma “pernada mais forte” de piora dos serviços em janeiro é esperada.

Em fevereiro, pode estar havendo alguma acomodação. Nos indicadores de mobilidade do Google, ele aponta, há sinais nessa direção. Já houve flexibilização das restrições nas principais cidades, como São Paulo e Belo Horizonte.

A recuperação pode se iniciar em março, mas o ritmo da retomada vai depender do avanço da vacinação e da evolução da própria pandemia, com os riscos associados a novas e perigosas variantes do coronavírus, como a B117.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/2/2021, quinta-feira.