Insanidade ambiental vai parar?

Bolsonaro ensaia meia volta em um dos mais irracionais aspectos do seu governo, a hostilidade à preservação do meio ambiente. Mas se for para valer tem que demitir Ricardo Salles.

Fernando Dantas

24 de abril de 2021 | 20h02

O presidente Jair Bolsonaro, ao anunciar que vai antecipar a meta de neutralização de emissões de carbono de 2060 para 2050, e que o Brasil dobrará os recursos de combate ao desmatamento ilegal até 2030, tenta fazer uma meia volta em um dos mais irracionais aspectos do seu governo.

Junto com o negacionismo em relação à pandemia, a atitude hostil de Bolsonaro em relação à preservação ambiental é uma opção gratuita pela perversidade que, em seu extremismo, não encontra paralelo nem nas principais lideranças do populismo de extrema direita hoje no mundo.

Pode-se alegar que o ex-presidente norte-americano, Donald Trump, também era um adversário dos ambientalistas e negacionista da Covid-19. Mas há diferenças. No segundo caso, Trump voltou atrás em vários aspectos, enquanto Bolsonaro continuou a defender ardorosamente medicamentos inapropriados e a combater o isolamento social.

No questão ambiental, ainda se pode, no contexto norte-americano, falar de uma lógica econômica, ainda que imoral, por detrás da postura de antagonizar a preservação. Afinal, o típico conflito nessa seara nos Estados Unidos envolve os interesses da poderosíssima indústria de petróleo e gás na produção de “shale gas” ou na exploração em regiões árticas.

No Brasil, os principais conflitos envolvem, sim, interesses econômicos. Mas temos, no caso da Amazônia, de um lado grileiros, garimpeiros, madeireiros ilegais e, quando há criadores de gado, está se falando da ponta mais selvagem e menos formalizada do negócio.

Do outro lado, há o interesse econômico muitíssimo mais importante de todo o agribusiness brasileiro, um dos mais pujantes e produtivos do mundo, no qual os bons acabarão pagando pelos maus pela crescente estigmatização do Brasil como o vilão ambiental do mundo.

Mesmo se tomando o setor produtivo do Brasil como um todo, as crescentes pressões preservacionistas no mundo podem resultar numa redução significativa dos fluxos de capitais pra o País.

É essa pressão, aliás – no caso da Cúpula de Líderes sobre o Clima, assumida pelos governantes das principais nações do planeta –,  que está fazendo Bolsonaro se mexer da sua insana postura inicial em relação ao meio ambiente.

Num padrão parecido com o da vacinação na pandemia, era completamente óbvio que a posição do governo era insustentável e teria que ser mudada.

Bolsonaro tem a estranha característica de ser “do contra”, de se posicionar de forma teimosamente contrária a temas pacificados e sobre os quais mesmo pessoas de pouca ilustração como ele tendem para a posição oposta à sua (com exceção do núcleo de seguidores fanáticos).

Um podcast sobre a juventude de Bolsonaro produzido pela revista Piauí alude a esse bizarro traço da psique do presidente, ao relatar que quando jovem era chamado por seu grupo de amigos do Vale da Ribeira como “invertido”.

A “inversão”, contudo, não tem como escapar ao facho de luz da realidade.

Como explica Fernando Carneiro, diretor da IHS Markit (provedora de dados baseada em Londres) para América Latina, e especialista em mercado de capitais, o número de empresas do Índice S&P que publicavam relatórios de sustentabilidade pulou de 11% em 2011 para 90% hoje.

Segundo Carneiro, mais de US$ 17,5 trilhões de ativos do mercado financeiro integram atualmente fatores ESG em suas estratégias de investimento.

ESG é a sigla em inglês para “ governança corporativa ambiental e social”, e se refere às melhores práticas de gestão de um negócio levando em conta esses fatores. A mensuração da sustentabilidade ambiental e social da operação das empresas é usada, por sua vez, para classificá-las e hierarquizá-las do ponto de vista do investidor que aplica os seus recursos.

O executivo da Markit explica que hoje há mais de 16 padrões sobre como preparar os dados sobre sustentabilidade ambiental e social das empresas para que façam parte dos relatórios corporativos formais. Carneiro acrescenta que há mais de 7 mil métricas para um relatório de sustentabilidade.

“O desafio é a conversão para uns três padrões no máximo”, ele diz.

Mas esse é um desafio que provavelmente será vencido diante da avassaladora onda de preocupação dos eleitorados nos países ricos e emergentes com o tema do meio ambiente. A pressão perpassa governos, empresas, consumidores, sociedade civil etc.

Um país que deixa seu patrimônio natural ser destruído por incompetência já é extremamente malvisto pelo establishment global, embora se tenha alguma tolerância para sociedades pobres que não têm recursos humanos e financeiros para proteger seu meio ambiente. Ajuda dos ricos para esse fim, aliás, tende a ser crescente.

Outra coisa inteiramente distinta, e muito pior, é o caso de Bolsonaro e do seu inacreditável ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que sabotam a fiscalização ambiental e promovem os interesses dos destruidores da natureza.

As consequências negativas para as empresas e a economia brasileira desse comportamento vil serão crescentes. Se Bolsonaro desejasse de fato “desinverter” a sua destrutiva política ambiental, seria fundamental o ato prático e simbólico de demitir Salles.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/4/2021, sexta-feira.