Intervir ou não, eis a questão

Fernando Dantas

16 de agosto de 2013 | 17h51

Em um momento de grande pressão sobre o real, o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), acha que “intervir ou não no dólar não é uma questão de princípio, religiosa”. Para ele, o BC está diante de um dilema: quanto mais conseguir intervir, com sucesso, e evitar uma maior desvalorização do real, menos terá que subir a Selic, a taxa básica de juros; e vice-versa.

Há implicações, porém, em cada escolha. Se a ideia for aproveitar a ocasião para recompor a competitividade do setor nacional de produtos comercializáveis internacionalmente (“tradables”), especialmente dos bens industriais, então a melhor estratégia, para Pastore, “é sentar e deixar o dólar subir”.

Isto, porém, exigirá mais da política monetária. O consultor explica que, para apoiar o processo de recomposição de competitividade, o BC pode aceitar o efeito primário da desvalorização, que é a inflação dos tradables, mas tem de usar a alta dos juros para conter os efeitos secundários, que atingem as expectativas e o setor dos produtos não negociáveis internacionalmente (non tradables). Estes são tipicamente produtos e salários.

Este último ponto é importante, para Pastore. A restauração da competitividade não é indolor em termos dos trabalhadores. “As pessoas têm que compreender que, se quisermos recompor competitividade, os salários têm que cair em relação aos tradables”.

O BC, porém, pode optar por tentar segurar a depreciação, o que faria com que tivesse de usar menos os juros. Pastore acha que a autoridade monetária não deveria vender dólares das reservas no mercado à vista, e tem de reconhecer seus limites, caso a intervenção com swaps no mercado futuro seja pouco eficaz.

“Vende swap, se reagir, reagiu, se não reagir, cruza os dedos e reza”, diz o economista.

Nesse “trade-off” complexo e delicado entre intervenção e alta da Selic, o Banco Central tem de ficar atento a algumas peculiaridades, para Pastore. Uma das principais é que o repasse cambial à inflação é rápido, especialmente na inflação dos tradables, enquanto o efeito da alta dos juros sobre os preços é bem mais lento.

Assim, se a intervenção for pouco eficaz este ano (ou se o BC decidir reduzi-la e deixar o câmbio flutuar), e o dólar subir bem acima do nível atual, a inflação de 2013 pode subir bastante e ir para mais de 6%, na visão de Pastore.

Ele nota que não há muito que fazer em termos da desvalorização do real no médio prazo, porque ela é resultado de “duas forças que se somam, a externa e a interna”. Lá fora, renovados sinais de fortalecimento da economia americana (hoje com a divulgação de indicadores de seguro-desemprego e do mercado imobiliário) tornam mais provável que a redução das compras mensais de títulos do mercado pelo Federal Reserve (Fed, BC americano) comece ainda este ano, talvez em setembro, o que já está elevando os juros nos Estados Unidos.

A maior atratividade da economia americana aos capitais está levando a um movimento geral de desvalorização em relação ao dólar, do qual poucas moedas escapam (ele nota que o euro, a libra esterlina, o dólar canadense e o peso mexicano têm se mostrado menos vulneráveis).

O problema, porém, é que esse movimento de desvalorização é mais intenso em países com déficit em conta corrente acima de certos níveis, como Brasil, Turquia e Índia. “É uma mudança inevitável, e o real vai procurar um novo equilíbrio, num nível mais depreciado”, ele conclui.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

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