IPCA alto, mas por dentro foi bom

Apesar de, em 0,43%, o IPCA (índice oficial de inflação) de fevereiro ter ficado acima do teto das projeções, ele trouxe uma boa notícia em termos da inflação de serviços, que é muito importante para determinar a política monetária do Banco Central.

Fernando Dantas

13 de março de 2019 | 13h25

Apesar de ter vindo ligeiramente mais alto do que o teto do intervalo das estimativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, o IPCA de fevereiro (divulgado na terça, 12/3), que fechou em 0,43%, trouxe “um alívio gigante” em termos de pressões inflacionárias, na visão de Carlos Thadeu Filho, economista-chefe da corretora Ativa, em São Paulo.

Os serviços no IPCA fecharam em 0,39%, contra a expectativa de Thadeu de 0,47%, e uma boa proporção de apostas do mercado na faixa entre 0,5% e 0,7%.

Melhor ainda, o núcleo dos serviços subjacentes com ajuste sazonal de fevereiro veio apenas em 0,14%. Essa é uma medida especialmente apreciada pelo Banco Central (BC), porque pega preços da economia que são particularmente sensíveis à demanda e, portanto, à ação da política monetária.

Em janeiro, esse mesmo núcleo veio no alto nível de 0,75%, sem dessazonalização (também sem ajuste sazonal, foi de 0,17% em fevereiro, segundo o cálculo do Bahia Asset Management).

Desde o final do ano passado, indicadores de alguma pressão nos índices de preços de serviços, como o núcleo subjacente, levaram a duas posições no mercado. A primeira era de que já poderia ser algum sinal de aquecimento de demanda, o que recomendaria especial cautela por parte do Banco Central (BC) em termos de eventuais novos cortes da Selic.

A segunda corrente apostava que os sinais de vida na inflação de serviços eram mais um fenômeno esporádico e não tanto ligado à demanda, como por exemplo um reajuste da alimentação fora de casa concentrado na virada do ano por força do hábito.

Na interpretação de Thadeu, os serviços no IPCA de fevereiro dão a razão a este segundo grupo.

O que, por outro lado, reforça a mão dos que apostam em novos cortes da Selic ainda este ano. Aliás, hoje, até o momento em que esta coluna estava sendo redigida, os juros futuros caíam em todos os vencimentos. Thadeu, em particular, projeta cortes da Selic num total de 0,75 ponto porcentual (pp) no segundo semestre. Ele prevê IPCA de 3,7% em 2019.

O economista nota que a o IPCA cheio acima do teto das projeções em fevereiro se deveu em parte aos alimentos no domicílio, que explicam 0,1 pp do índice, mas com muita concentração na alta do feijão e dos “temporários”, isto é, alimentos frescos, hortaliças, etc. Excluindo temporários e feijão, esse item ficou -0,02% em fevereiro.

“O choque é muito concentrado”, diz Thadeu.

Já os bens duráveis e semiduráveis contribuíram com 0,06 pp, com a alta acima do esperado concentrada em vestuário e automóveis, novos e usados.

Tomás Brisola, economista-chefe do Bahia Asset, também viu como positivo o núcleo subjacente de serviços de fevereiro.

Ele nota que essa medida, em termos da média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada – para se ter uma visão de tendência e diretamente comparável com a meta de inflação anual – ficou em 3,9% nos três meses até fevereiro. Está, portanto, confortavelmente compatível com a meta deste ano (4,25%) e também abaixo da meta de 2020 (4%).

Por outro lado, acrescenta Brisola, essa mesma medida esteve em território bem mais baixo, entre 2% e 3%, entre janeiro e agosto do ano passado. Igualmente, juntando-se o núcleo subjacente de serviços com um indicador parecido (subjacente) referente a bens, a média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada até fevereiro está no nível muito tranquilo de 2,9%, mas esteve entre 1,5% e 2% durante aquele mesmo período de 2018.

Brisola ainda tem como cenário básico que a Selic permaneça em 6,5% até o final do ano, mas diz que a discussão daqui para a frente, de fato, deve ser se a taxa básica fica onde está ou se cai.

Na sua visão, se a reforma da Previdência for aprovada, poderá haver fatores puxando a inflação em sentidos contrários. Uma queda do risco Brasil combinada com eventual apreciação do câmbio puxa para baixo. Uma retomada mais firme da economia na esteira do ganho de confiança poderia em tese fechar mais rapidamente o hiato do produto e exercer alguma pressão altista.

Para o economista, esses fatores e seus impactos relativos provavelmente terão de ser reavaliados pelo BC no meio do ano, para manter o atual plano de voo da política monetária ou decidir por novos rumos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/3/19, terça-feira.

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