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IPCA de 3% em 2018?

O economista Carlos Thadeu Filho explica por que a inflação pode surpreender para baixo de novo no ano que vem.

Fernando Dantas

20 Setembro 2017 | 21h03

A projeção mediana do Focus para o IPCA de 2018 está em 4,12%, e a dos Top Five (grupo de instituições selecionadas periodicamente pelo BC por serem as que mais acertaram suas previsões) está em 3,94%. Mas o economista e consultor Carlos Thadeu Filho diz que vai mudar a sua projeção de 3,26% para perto de 3%, e, a partir daí, considera que o risco “é para baixo”. Isto é, o IPCA do ano que vem poderia ficar até abaixo de 3%.

“E, com isso, a Selic vai embora, vai para 6% tranquilo, até porque, se não baixar a Selic, o juro real vai subir”, acrescenta o analista.

A sua projeção tem como um dos fatores a previsão de que a deflação de alimentos no domicílio prosseguirá em 2018. Como se sabe, esse componente da inflação desabou este ano e foi uma causa relevante do grande recuo do IPCA. A inflação dos alimentos no domicílio subiu 13,47% em 2015 e 10,18% em 2016, e em 2017 deve cair 1,87%, segundo a projeção do economista. A sua previsão do momento é de que o item apresente deflação de 0,58% em 2018, mas Thadeu Filho nota “que estou sendo pessimista, pode até cair 1% ou 2%”. Este é um dos ajustes na projeção do IPCA que ele pretende realizar, e que pode fazer sua previsão do índice no próximo ano cair para 3%.

Como justificativa para o seu cenário para os alimentos, o economista explica inicialmente que as projeções climáticas, que hoje têm um grau bem razoável de confiabilidade para um prazo de seis meses à frente, indicam que não haverá perturbações em 2018, especialmente em relação à temperatura do Pacífico e à conhecida e por vezes perturbadora alternância entre os fenômenos El Niño (água quente) e La Niña (água fria).

Em segundo lugar, ele aponta que há uma segunda etapa de desinflação ou deflação a ocorrer na cadeia produtiva alimentar, a partir do recuo de cereais como milho, soja e trigo. A queda de preços já chegou às rações, por exemplo, mas não aos produtos de proteína animal como frango, carne bovina, leite e ovos. No caso do trigo, falta também chegar à ponta final dos pães, panificados e massas.

Thadeu Filho também pretende revisar sua projeção da inflação de serviços do IPCA para 2018. A sua previsão atual é de que fique em 4,45% em 2017 e 4,7% em 2018. Porém, levando em conta os efeitos defasados do grande hiato do PIB (a diferença entre quanto a economia pode crescer sem desequilíbrios e quanto está crescendo), e também o ritmo gradual de recuperação do mercado de trabalho a partir de níveis recorde de desemprego, ele pensa que a inflação de serviços pode ficar mais baixa que sua projeção atual.

O economista também pode até revisar um pouco para cima sua projeção da inflação de preços administrados para 2018, que está em 5%, mas o efeito geral das revisões deste item, dos alimentos fora do domicílio e dos serviços será baixista.

Se Thadeu Filho estiver correto, a safra de surpresas inflacionárias positivas ainda está longe de terminar. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/9/17, segunda-feira.