“IPCA deve atingir 8,5% em 2021”

O economista Carlos Thadeu, da gestora Asset1, vê inflação pressionada em múltiplas frentes este ano, com reflexos em 2022 também.

Fernando Dantas

28 de julho de 2021 | 21h01

O IPCA deve chegar a 8,5% em 2021 e a 4,6% em 2022, nas projeções de Carlos Thadeu, economista sênior da Asset1, a gestora de Carlos Viana, ex-diretor do Banco Central (BC).

“É mais fácil a inflação ir a 9% em 2021 do que ficar em 7%”, disse Thadeu à coluna.

Para o analista, a reabertura da economia vai ser bem mais inflacionária do que muitos julgam, e a tendência não deve se limitar aos serviços ligados à mobilidade, os mais paralisados pela pandemia.

Ele nota que a inflação de 2021 implícita em títulos públicos pós e prefixados subiu nos últimos 15 dias de aproximadamente 6,6% para 7,5%. Se os prognósticos de Thadeu estiverem corretos, há espaço para subir mais.

O economista vê substanciais pressões inflacionárias em bens industriais, serviços, preços administrados e alimentação.

Na parte de bens industriais, ao contrário do BC, o analista acha que as pressões por problemas de logística – como a falta de chips – não são temporárias, e a normalização só virá em 2023.

“Os problemas devem se prolongar por todo 2022, mas a pior parte vai ser em 2021”, ele diz.

Thadeu não vê, como alguns analistas, alívio na pressão sobre produtos industriais derivada de uma prevista reversão da tendência da pandemia de as pessoas gastarem menos com serviços e mais com bens: “Esse movimento deve ser mais lento do que se pensa”.

Ele nota que, no caso de automóveis, diversas fábricas estão com linhas de produção paradas, por problemas de componentes. A projeção da Asset1 para a inflação de automóveis em 2021 é de 12,8%, o que se compara com algo em torno de 2,5% na média dos últimos cinco anos.

Segundo o analista, o fenômeno da disparada do preços de carros usados nos Estados Unidos já começa a ser notado no Brasil.

Contribui para o encarecimento de carros, eletrodomésticos e eletrônicos a alta do custo de minério de ferro, aço, petróleo, borracha dos pneus e mão de obra.

Quanto aos serviços, Thadeu afirma que “a inflação vai surpreender”, a começar pelos setores mais associados à mobilidade (e que mais sofreram na pandemia), como passagens aéreas, aluguel de veículos, hotéis, restaurantes etc.

Mas ele vê pressões também em serviços historicamente ligados ao IGP-M, como aluguéis e condomínios. Thadeu observa que os aluguéis subiram salgados 0,93%  no IPCA-15 de julho. São poucos os contratos ainda ligados diretamente ao IGP-M (35,75% de inflação acumulada em 12 meses até junho), mas que puxam a média para cima.

Mesmo nos serviços mais ligados à renda da população, que teoricamente teriam menos razão de subir, o analista identifica pressões. Ele costuma acompanhar três desses serviços em particular – manutenção de eletrônicos, consertos de automóveis e serviços pessoais excluindo os domésticos. Todos estão bem pressionados, especialmente no último trimestre.

Já o Índice Nacional de Custo de Construção (INCC), também fortemente afetado pelo custo da mão de obra, está acima de 12% na média móvel de três meses anualizada. Thadeu acrescenta que os motoristas e cobradores de ônibus de São Paulo estão fechando um acordo de aumento salarial de 7,59% (em duas etapas, 4% agora, retroativos a maio, e 3,59% em janeiro de 2022).

Em termos de preços administrados, a projeção do economista é que o petróleo tipo Brent, hoje por volta de US$ 75 o barril, suba acima de US$ 85 até o final do ano, com a combinação de controle da oferta pela OPEP e uma demanda global na saída da pandemia maior que a esperada. Já o etanol está pressionado pelo efeito das geadas na colheita de cana.

E há, obviamente, a crise hídrica. Thadeu vê grande probabilidade de mais um ano de fenômeno La Niña, que pode inclusive assumir um feitio específico que provocaria secas substanciais na Argentina e Sul do Brasil no início de 2022.

Ele vê 60% de chance de que a bandeira vermelha 2 nas tarifas de energia elétrica seja mantida até o fim do ano, incluindo dezembro, o cenário compatível com a projeção de 8,5% de IPCA no ano. Caso haja bandeira vermelha 1 no final do ano, o índice poderia ficar em torno de 8%.

Quanto à alimentação, o segmento é afetado tanto pelas geadas a curto prazo quanto pela seca, com a alta dos principais grãos atingindo com força a cadeia de proteínas, como carnes, ovos, leite, queijo etc.

Ele nota que as margens dos produtores estão muito comprimidas, desincentivando a ampliação da oferta, o que pode se combinar com um impulso na demanda pela reabertura de restaurantes. A projeção é de alta de 10% nos alimentos este ano, podendo chegar a 12%.

Para 2022, a projeção de IPCA de Thadeu é de 4,6%, mas com propensão à revisão para cima. Entre os riscos, ele cita a possibilidade de um novo ciclo de gripe suína na China e eventos climáticos e ambientais

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/7/2021, quarta-feira.