Já é governo em crise?

Bolsonaro não dá mostras de aprender com erros e popularidade começa a cair, em meio às muitas confusões aprontadas pelo presidente e filhos.

Fernando Dantas

22 de março de 2019 | 13h20

A prisão de Michel Temer e de Moreira Franco catalisou uma piora nos ativos brasileiros nessa quinta-feira (21/3), mas parece mais a gota d’água que entornou o caldo. A grande má notícia é o mergulho da popularidade presidencial desde janeiro mostrado ontem pelo Ibope.

Como diz o cientista político Cesar Zucco, da Ebape/FGV, “o governo Bolsonaro dá a impressão de já estar fazendo água”.

A situação é preocupante para as perspectivas de aprovação da reforma da Previdência (e do timing e grau de diluição), porque Bolsonaro até agora não deu sinais de que seja capaz de aprender com os erros.

“Se entrar em junho com popularidade em queda, e ele pedir para o Congresso, que não é dele, botar a cara para aprovar um negócio impopular de um presidente que, a esta altura, já será visto como ruim e impopular, a situação vai ficar difícil”, acrescenta Zucco.

Um bom resumo da encrenca foi “tuitado” hoje (em inglês) por Brian Winter, editor-chefe da publicação Americas Quarterly:

“O maior problema com a popularidade em queda de Bolsonaro: toda a estratégia legislativa deles está baseada em ele ser popular. Eles na maior parte dos casos evitaram a política fisiológica tradicional, em vez disso gritando para o Congresso – ‘Somos populares demais para vocês resistirem.’ E agora?”

O cientista político Carlos Pereira, também da Ebape/FGV, é outro que vem batendo na tecla. Quando Bolsonaro optou por romper com o presidencialismo de coalizão, não montando uma base de apoio formal no Congresso e não distribuindo os cargos do governo de acordo com a representatividade de cada partido nela, o presidente apostou num caminho de alto risco.

Nesses casos, o que vale é a popularidade presidencial, principalmente em início de mandato, com a qual o mandatário consegue dobrar o Legislativo para aprovar sua agenda. Entretanto, a literatura de Ciência Política indica que, tipicamente, quando acaba a lua de mel e o novo presidente começa a enfrentar problemas políticos e se enfraquece, as lideranças parlamentares se “vingam” da estratégia de tudo ou nada inicial contra elas empregada. E tratam de enfraquecer ao máximo um presidente em que não confiam e que, reciprocamente, também não confia nelas.

O problema com Bolsonaro é que mal parece ter havido lua de mel. Antes mesmo de assumir, o presidente já era atingido por petardos como o escândalo da “rachadinha” envolvendo o senador Flávio Bolsonaro nos seus tempos de Assembleia Legislativa no Rio.

A partir daí, Bolsonaro,filhos e alguns ministros protagonizaram uma série de fatos que parecem só ter agradado às alas mais radicais de seus apoiadores, e, às vezes, não agradaram ninguém: as bizarrices e trapalhadas de ministros como Ernesto Araújo, Ricardo Vélez Rodrigues e Damares Alves, a feia briga que levou à saída de Gustavo Bebianno, as denúncias de envolvimento de Flavio Bolsonaro com milícias, a proximidade social dos assassinos de Marielle com Bolsonaro (o que não quer dizer envolvimento), os tuítes estapafúrdios de Carnaval, as declarações contra imigrantes brasileiros, entre outros casos.

No que depende dele, Bolsonaro está dando tantos tiros no pé quanto consegue. Mas há também o desafio salgadíssimo de governar o Brasil com a agenda de um imenso ajuste fiscal à frente.

O governo está sendo criticado pela economia pífia da proposta de reforma da Previdência dos militares, mas Bolsonaro foi, de fato, o primeiro presidente a pautar esta questão de forma mais ampla desde a redemocratização. Este era um problema do qual ele não conseguiria fugir, ainda mais pela importância dos militares em seu governo.

O problema, porém, é que a dinâmica de reformas da Previdência no Brasil indica – como nota Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM – que, diante dos reclames gerais de que a reforma dos militares não é suficientemente dura, o desfecho mais provável é que a mantenham assim, ou quase assim, e que diluam também as mudanças de outros grupos de pressão poderosos. Isto é, não se eleva a reforma dos militares à dureza da proposta dos outros segmentos, mas se rebaixa a reforma dos outros segmentos à generosidade da proposta dos militares.

Zucco, da Ebape, observa que a aliança de grupos heterogêneos da candidatura Bolsonaro – radicais de direita, militares, liberais e antipetistas em geral – foi muito mais fácil de manter durante a campanha do que no governo. E, já que é assim, a opção de Bolsonaro parece ter sido a de continuar em campanha.

Dessa forma, o presidente não se antecipa e coordena a ação conjunta desses grupos, estabelecendo prioridades e hierarquias, mas simplesmente deixa que os problemas estourem e busca resolver depois. Acaba desagradando a gregos e troianos, o que também é verdade na proposta da reforma da Previdência dos militares.

De qualquer forma, a situação parece caminhar a passos rápidos para o que poderia ser descrito como “um governo em crise”, embora ainda não se tenha chegado lá e, em teoria, ainda seja possível mudar o curso. O assustador é que esteja se discutindo isso antes dos célebres primeiros 100 dias. Na verdade, nem 90 transcorreram até agora.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/3/19, terça-feira.