Já ter feito parte do governo Dilma atrapalha?

Para o economista Tiago Berriel, da PUC-Rio e sócio e economista-chefe da gestora Pacífico, nomes que já passaram pelo governo Dilma vão ter que lidar com problema adicional de ceticismo do mercado, caso emplaquem na liderança da nova equipe econômica.

Fernando Dantas

21 de novembro de 2014 | 14h10

Enquanto esperam ansiosamente pelo                anúncio do novo ministro da Fazenda, os analistas do mercado inevitavelmente traçam cenários com os nomes que vêm sendo mencionados no noticiário como possíveis candidatos. Para Tiago Berriel, professor de Economia da PUC-Rio e economista-chefe da Pacífico Gestão de Recursos, uma questão muito importante é saber se o novo ministro participou ou não da gestão econômica no primeiro mandato da Dilma Rousseff.

Sua visão, naturalmente, dirige-se a nomes ventilados que têm aquele perfil: o do ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, e o do atual presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. Para Berriel, tanto um quanto o outro terão grandes dificuldades adicionais em realizar o necessário ajuste econômico por terem participado do governo de Dilma Rousseff.

“O ajuste fica maior, pode ser tornar custoso demais e, em última instância, acabar não sendo feito”, ele resume.

Para explicar seu ponto, Berriel traça em linhas gerais o que, na sua opinião, teria de ser a correção necessária para reequilibrar a economia brasileira. O pano de fundo, segundo o economista, é o de um governo que sistematicamente descumpriu as metas fiscais, usou de uma série de artifícios para encobrir este fato e promoveu uma grande expansão parafiscal por meio dos bancos públicos.

“Um corte de gasto em recessão para gerar um superávit primário de 2% do PIB é praticamente impossível”, diz Berriel, referindo-se a 2015 e ao resultado fiscal necessário para rapidamente reagir às dúvidas sobre a trajetória de endividamento público no Brasil. Ele vê nos riscos políticos e energéticos rondando o próximo ano fatores adicionais de incerteza que podem comprometer ainda mais as perspectivas de crescimento.

Dessa forma, a alternativa seria um plano crível para atingir em dois ou três anos um superávit primário razoável e compatível com finanças públicas sustentáveis. Um sinal suplementar que Berriel considera muito importante seria o Banco Central agir para recolocar rapidamente as expectativas de inflação dois anos à frente no centro da meta, de 4,5% (hoje as expectativas para 2016 já estão acima de 5,5%).

Para o economista, o BC deverá agir duramente para domar as expectativas desancoradas, mas isto se torna possível se paralelamente o novo ministro da Fazenda anunciar um plano fiscal crível e bem recebido pelo mercado.

O problema, para ele, é que “idealmente esse processo de ajuste deveria ser comandado por alguém (o novo ministro da Fazenda) que não tivesse de encarar o custo de credibilidade associado ao primeiro mandato da presidente Dilma”.

O problema de nomes como Barbosa e Tombini, para Berriel, é que os agentes econômicos podem enxergá-los mais como executores das ideias econômicas de Dilma do que como portadores de ideias próprias e novas que convencerão a presidente a mudar de rota. Ele nota que a campanha eleitoral e as primeiras manifestações de Dilma depois de reeleita não sugerem que ela tenha mudado fundamentalmente a visão econômica que presidiu suas ações no primeiro mandato.

Quanto ao problema da relação com a presidente, Berriel considera o nome de Tombini ainda mais duvidoso do que o de Barbosa, “que pelo menos em algum momento, segundo consta, teve embates dentro do governo, possivelmente com Arno (Augustin, atual secretário do Tesouro), e acabou saindo”.

Por outro lado, Berriel considera – a partir de sua leitura de documentos como um trabalho de Barbosa com o economista José Antonio Pereira de Souza de alguns anos atrás – que o ex-secretário executivo da Fazenda teve uma visão favorável a vários dos pontos que deram errado na política econômica de Dilma no momento em que estava no governo. Isto, por sua vez, criaria um ceticismo adicional em relação a sua capacidade de recolocar a economia no rumo certo agora.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/11/14, segunda-feira.

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