Janeiro melhor que dezembro

Recente mudança positiva no humor (esta coluna foi escrita e publicada na sexta-feira, 27/1) reflete percepção de que desapontamento com o PIB deriva de rateadas num processo de recuperação mais lento e irregular do que se supunha; e não de que simplesmente o otimismo era uma miragem e de que não há sinais de recuperação no horizonte visível, como chegou a se temer no final do ano passado.

Fernando Dantas

30 de janeiro de 2017 | 18h03

A mudança positiva no humor em relação à economia brasileira em janeiro, na comparação com dezembro, poderia ser descrita mais como alívio por sinais de que o pior não aconteceu do que como entusiasmo por algo que esteja ocorrendo.

O grande fantasma do final do ano passado foi a frustração da retomada econômica, que não veio nem no terceiro nem no quarto trimestre. A partir daí, surgiu a questão de se esse desapontamento se devia às rateadas que muitas vezes acontecem efetivamente quando uma economia sai de uma recessão muito profunda e longa; ou se, na verdade, o poço era bem mais profundo, o timing da saída dele bem mais distante, e o ritmo bem mais incerto.

Uma particular preocupação era a continuidade e a ampliação do descolamento, nos indicadores de confiança, entre os índices de expectativas e os de situação atual. Uma “boca de jacaré” se abriu entre os primeiros, que depois do impeachment e da mudança da política econômica se embalaram em uma onda de otimismo, e os últimos, que teimavam em não reagir à altura da melhora das expectativas.

Duas narrativas poderiam explicar o fenômeno. A primeira é que houve excesso de entusiasmo com a retomada e a boca de jacaré seria uma calibragem das expectativas em direção a uma recuperação menos empolgante e mais acidentada, mas ainda assim uma recuperação – um cenário compatível com a hipótese da rateada. A segunda explicação é que a melhora das expectativas foi uma simples miragem, sem que objetivamente houvesse uma retomada nascendo no horizonte visível.

Dados de atividade e confiança muito ruins divulgados no final do ano passado reforçaram esta última possibilidade. Neste sentido, o alívio em janeiro é que há indícios consistentes de que a hipótese do soluço na retomada voltou de novo à cena, não como certeza, mas como possibilidade bem razoável.

A produção industrial em dezembro, a ser divulgada em 1º de fevereiro, deve apresentar um crescimento robusto, empurrado pela produção de veículos.

Nos indicadores de confiança de janeiro da FGV, por sua vez, houve não só melhoras, mas finalmente surgiram sinais de maior consistência entre os índices de expectativa e os de situação atual, como nota Silvia Matos, que coordena a pesquisa conjuntural no Ibre/FGV. A prévia da confiança na indústria em janeiro indicou alta de 3,1 pontos, composta pelas elevações equilibradas de 3,4 pontos nas expectativas e de 2,9 pontos na situação atual.

Já no caso da confiança da construção em janeiro, o índice divulgado hoje mostrou alta de 2,5 pontos. As expectativas (+3,4 pontos) subiram bem mais que o índice de situação atual (+1,5), mas, ainda assim, este último foi na direção correta.

No caso do consumidor, apesar da queda de 7,7% do índice de confiança da Fecomércio em janeiro em relação a dezembro (mas com alta de 14,4% ante janeiro de 2016), o índice da FGV registrou alta de 6,2 pontos, voltando ao nível de setembro. Novamente, as expectativas subiram mais (+8,3), mas houve também elevação do índice de situação atual (+2,9). Finalmente, o índice de confiança do comércio da FGV subiu 0,6 em janeiro e, neste caso, o resultado positivo foi inteiramente devido ao índice de situação atual (+1,2), já que as expectativas tiveram mínimo recuo de 0,1 ponto.

“Não é que o PIB do primeiro trimestre vai ser maravilhoso, mas toda a sinalização de janeiro até agora mostra uma reversão do mau humor que nos preocupou em dezembro”, conclui Silvia. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/1/17, sexta-feira.

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