Japão luta firme contra deflação

O Banco do Japão (banco central) está levando a sério a tarefa de tentar criar uma inflação de 2% ao ano. Reagiu aumentando seu programam de injeção de liquidez quando a inflação ameaçou ficar abaixo de 1%.

Fernando Dantas

12 de novembro de 2014 | 23h40

Uma das grandes preocupações dos observadores mais pessimistas da economia global é que o conjunto dos principais países desenvolvidos esteja caindo na mesma armadilha deflacionária que condenou o Japão à quase estagnação desde que a bolha nipônica estourou na virada das décadas de 80 e 90. Estados Unidos e Reino Unido dão a impressão de ter reduzido muito esse risco, tanto que há expectativa de que suas taxas básicas de juros voltem a subir em prazo relativamente curto. A zona do euro, porém, continua bastante ameaçada, o que vem aumentando a pressão sobre o Banco Central Europeu (BCE) para se engajar com mais ousadia em estratégias não convencionais de expansão de liquidez.

A boa notícia, por outro lado, e que há alguma chance de que o Japão tenha finalmente descoberto o remédio para a chamada “japanização”. Como analisado em reportagem recente no Wall Street Journal, a política superagressiva adotada pelo Banco do Japão (banco central) para criar inflação parece estar dando certo. A inflação japonesa permanece acima de 1% por quase um ano, a primeira vez que isto acontece em 15 anos.

Pedro Castanheira Schneider, analista de Japão no Itaú Unibanco, nota que o Banco do Japão, liderado por Haruhiko Kuroda, não tem brincado em serviço na luta para preservar a inflação. O Banco do Japão reagiu rápido à recente “piora” do quadro inflacionário (que, ironicamente, no caso japonês, significa aumento do risco de a inflação cair), provocada em parte pela queda do preço internacional do petróleo e seu impacto no preço da gasolina, que ajudou a derrubar um pouco as expectativas de inflação japonesas.

Assim, foi aumentada de 70 trilhões para 80 trilhões de ienes (US$ 695 bilhões) a meta de expansão da base monetária em um ano, que é o método utilizado pelo Banco do Japão para sua política de expansão monetária quantitativa, principalmente pela compra de títulos do governo. A decisão, que surpreendeu positivamente o mercado, mostra como o Japão está agindo decisivamente na sua luta contra a deflação, inclusive com respostas extremamente rápidas às circunstâncias do momento.

Schneider lembra que a nova postura agressivamente anticonvencional de política monetária do Banco do Japão iniciou-se março de 2013, em função de um novo mergulho do país em território deflacionário iniciado em meados de 2012.

Esse experimento inédito de política monetária, em que o BC trabalha explicitamente para produzir uma inflação de 2% num país que está bem abaixo disso, parece estar dando certo. A inflação galgou e se estabeleceu num nível próximo de 1% a partir de junho de 2013. Os 2% ainda não foram alcançados, mas ter metade desta inflação já é considerado uma vitória parcial. Segundo Schneider, foi justamente a ameaça de que a inflação caísse de novo abaixo deste nível que levou ao reforço do afrouxamento quantitativo no final de outubro.

Em setembro, a inflação japonesa ficou em 1,3% (na comparação interanual), mas o núcleo que exclui alimentos foi de 1%. A inflação de Tóquio em outubro foi de 1% tanto no índice cheio quanto no núcleo.

Em termos econômicos, o Japão voltou a ter crescimento no território positivo em 2012, mas com desaceleração, possivelmente para menos de 1%, este ano. Esta é outra razão para a atuação firme no programa inflacionário. Segundo a reportagem do WSJ, a cautela das empresas e problemas da própria política econômica – como o aumento do imposto sobre vendas para melhorar as finanças públicas, mas que desestimulou a demanda – contribuem para manter a economia japonesa em baixa velocidade.

De qualquer forma, o remédio antideflacionário do Banco do Japão parece estar funcionando. “A economia cresceu mais no ano passado, mas este ano deve crescer também, inclusive em termos per capita”, diz Schneider.

Outra questão é saber se o Banco Central Europeu (BCE) poderá vir a adotar a nova terapia japonesa: “A discussão recente é se o BCE teria tanta coragem quanto o Banco do Japão – o problema é que na zona do euro são vários países, o que cria dificuldades que o Japão não teve”, diz o analista.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/11/14, segunda-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.