Juro cai mesmo em outubro?

Dúvidas fiscais e comportamento teimoso da inflação de curto prazo criam dúvidas sobre previsto corte da taxa básica em outubro, mas que ainda permanece como projeção de vários analistas.

Fernando Dantas

29 de agosto de 2016 | 19h12

As incertezas sobre o sucesso da estratégia fiscal do governo e a resistência da inflação em julho e agosto fizeram com que o mercado revisitasse a convicção de que a Selic começa a cair na reunião do Copom de outubro.
Um ou outro analista cogita até da hipótese de que a taxa básica não seja reduzida este ano, mas a maioria ainda vê queda em outubro. Ainda assim, entre estes últimos já se faz a ressalva de que cresceram os riscos de que a previsão seja frustrada.

Alexandre Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, no Rio, tem a visão de que o mercado exagerou nos seus prognósticos de corte de juros desde que Ilan Goldfajn assumiu a presidência do Banco Central (BC) em junho.
Póvoa prevê corte da Selic de 0,25 ponto porcentual na reunião de outubro, e de 0,5 na de dezembro, mas acrescenta que “não me surpreenderia e não consideraria absurdo um corte de 0,25 apenas em dezembro ou se não houvesse redução este ano”.

Ele observa que o próprio Ilan enfatizou fortemente em sua comunicação a importância de avanços na política fiscal para cimentar a trajetória de queda dos juros. “Apesar da boa proposta inicial (na área fiscal), o encaminhamento tem sido muito lento – o novo BC já conseguiu um ganho bem razoável em termos de expectativas, e eu acho que de agora em diante vai depender de uma sinalização adicional mais clara na política fiscal”, diz Póvoa.

Outro analista, que tem prognóstico de cortes igual ao de Póvoa, acrescenta que a inflação de curto prazo também não está colaborando para firmar as projeções de redução da Selic a partir de outubro. “Em julho esperava-se um IPCA perto de 0,2% e acabou vindo 0,52%; agora em agosto a ideia era 0,3% e está caminhando para se algo em torno de 0,45%”, ele diz.

Entre os problemas no caminho da desinflação, estão os alimentos, que nos últimos anos vêm se especializando em provocar dor de cabeça nas as autoridades monetárias, e uma interrupção na queda da inflação de serviços em 12 meses, embora os sinais na margem são de que o movimento possa ser retomado.

Mas o nó do problema parece ser mesmo a política fiscal, na qual muitos analistas enxergam o governo um pouco aturdido, com dificuldades de disciplinar o discurso dos seus principais representantes e de unificar a base de apoio no Congresso em torno da ideia de que aprovar a PEC do limite de gastos com o mínimo de alterações é um objetivo imprescindível e vital.

Dessa forma, a expectativa sobre como será o desempenho político do governo pós-impeachment vai crescendo. Já há previsões de que a lua de mel com o mercado poderá acabar de forma abrupta se Temer, já como presidente até 2018 em caráter definitivo (se Dilma for impedida, como quase todos preveem), não arregaçar as mangas para que a agenda fiscal seja aprovada de forma rápida e contundente. Se esta sinalização não vier, é possível que parte do mercado passe a apostar que o início do ciclo de cortes da Selic não terá início em outubro. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/8/16, sexta-feira.

Tendências: