Juro negativo é uma anomalia?

Samuel Pessoa diz que forças da economia podem produzir um equilíbrio com juros em torno de zero ou mesmo negativos. Mas não é um equilíbrio eficiente. Neste caso, é melhor estimular o consumo para reduzir o excesso de poupança frente às intenções de investimento.

Fernando Dantas

10 Fevereiro 2016 | 18h57

O assunto do momento é o mergulho dos juros globais, com trilhões de dólares de títulos de países ricos rendendo abaixo de zero. A situação é percebida como uma anomalia por grande parte dos observadores, mas Samuel Pessoa, economista-chefe e sócio da gestora Reliance, afirma que “é perfeitamente possível imaginar situações em que o equilíbrio de uma economia seja com juro real negativo”. Uma segunda pergunta, continua, é saber se equilíbrios deste tipo são “ótimos” em termos de eficiência econômica. Em conversa com o colunista, ele abordou as duas questões separadamente.

Quanto a saber se é possível o equilíbrio com juro real zero ou negativo, Pessoa chama a atenção para o caso de sociedades que não têm (ou têm em escala muito reduzida) sistemas previdenciários por repartição – isto é, em que os idosos têm direito a um fluxo de renda extraído de quem está trabalhando.

Na ausência de sistemas desse tipo, ele nota, as pessoas vão poupar para os anos de velhice, em que sabem que não mais poderão trabalhar, mesmo que o retorno da poupança seja zero ou negativo. “Elas não poupam para ganhar o juro, o prêmio associado ao adiamento do consumo, mas sim porque precisam transferir seu fluxo de renda para uma fase da vida em que não terão mais como trabalhar – elas estão dispostas até a pagar um prêmio, o juro real negativo, para fazer isso”.

Dessa forma, não é necessariamente verdadeira a visão de que, se o juro é muito baixo, as pessoas param de poupar, o capital acabará ficando escasso e os juros tornam a subir.

Uma segunda questão é que, em países em que a população encolhe, começa a haver sobras de capital. A estrutura física já está pronta, com casas, transportes, rede elétrica, saneamento, etc., e há uma tendência a aumentar sua ociosidade, o que derruba o retorno desses investimentos. Assim, há um desestímulo a investir, recursos de poupança ficam parados nos bancos, e, no limite, com os custos administrativos, a situação de equilíbrio é o juro real negativo.

Pessoa ressalva que há uma força que vai na direção contrária: com o envelhecimento da população, cresce a proporção de idosos, que tendem a despoupar, ao contrário dos jovens. Mas dois fatores têm mitigado este efeito. O primeiro é que o aumento da expectativa de vida e a incerteza do momento da morte faz com que os idosos sejam mais parcimoniosos. O segundo é que, mesmo que haja uma proporção maior de velhos, estes estão gastando uma poupança formada quando a renda per capita do país era menor. Em outras palavras, os jovens poupam de uma renda maior do que aquela de que os idosos despoupam.

Toda essa descrição de características demográficas e de poupança condiz mais com o Leste asiático, em que é comum a combinação de baixo crescimento populacional (ou até negativo, como no Japão) e rede de previdenciária e de proteção social diminuta (o caso mais emblemático é a China).

Mas Pessoa aponta que outros fatores, de caráter tecnológico, também podem levar o mundo a um equilíbrio de juros baixíssimos ou negativos. Uma é a teoria (polêmica) do economista norte-americano Robert Gordon de que o crescimento econômico futuro será menor porque as atuais revoluções tecnológicas, como a informática, não geram ganhos de produtividade comparáveis às revoluções do passado, como a eletricidade e o motor de combustão interna.

Se de fato o crescimento potencial global agora é mais lento (há outras teorias diferentes, além daquela de Gordon, para explicar esta hipótese), explica Pessoa, as pessoas ficam menos otimistas sobre seu futuro e tendem a poupar mais. Supondo uma relação capital-produto constante, menor taxa de crescimento do PIB também leva a menor taxa de crescimento dos investimentos.

Mas outra faceta das atuais mudanças tecnológicas pode estar inclusive reduzindo a relação capital-produto. O economista da Reliance nota que o Google se tornou uma empresa imensa com pouca necessidade de poupança, crescendo na base de capital humano e inovação. Já uma empresa da “velha economia” como a General Motors, que vale menos que o Google, precisa de uma base material de capital muito maior. Este é outro fator que pode fazer que sobre poupança em relação ao investimento pretendido, jogando para baixo as taxas de juros globais.

A segunda grande questão é saber se esse equilíbrio de juros em torno de zero ou negativos é “ótimo” em termos de eficiência econômica. A resposta de Pessoa é que não. Se o retorno do capital é negativo, o investimento não contribui para ampliar a renda, e, em consequência, o PIB. Em outras palavras, o investimento é maior do que o razoável. Nestas situações, para o economista, a receita é estimular o consumo, e, para isso, nada melhor do que aumentar e melhorar a rede de proteção social. “São agendas como uma Previdência mais generosa na China, ou o Obamacare nos Estados Unidos”, ele exemplifica.

Pessoa frisa, para concluir, que o caso brasileiro é exatamente o contrário: rede social muito generosa para a maioria da população, pouca poupança e juros altos. Em resumo, nem pensar em seguir aqui a terapia que ele recomenda para uma parte importante da economia global. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast