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Juro zero nos EUA por muitos anos?

Fernando Dantas

14 de julho de 2014 | 19h08

Uma das mais importantes discussões econômicas da atualidade é o que vai acontecer a médio e longo prazo com as taxas de juros norte-americanas, que estão no centro do sistema financeiro internacional. Uma visão convencional é de que, por mais traumático e prolongado que seja o atual período pós-crise global, em que as taxas de curtíssimo prazo caíram para virtualmente zero, a economia americana vai acabar retornando à normalidade, e os Fed Funds (taxa básica) voltarão para mais próximo dos seus níveis históricos.

É bem possível, de acordo com muitos analistas, que a nova normalidade se dê com níveis de crescimento potencial e de juros neutros abaixo dos que prevaleceram antes da crise.

Porém, caminhando nessa linha de raciocínio, mas indo um pouco mais longe, já há quem preveja que o juro real dos Fed Funds possa permanecer em zero por um período bem mais longo (na verdade, hoje eles estão negativos, porque há inflação e a taxa nominal está em praticamente zero – mas a expectativa mais normal é de que, com a normalização da política monetária, eles voltem ao terreno positivo).

Segundo um relatório de julho deste ano da consultoria canadense “The Bank Credit Analyst”, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) pode manter uma taxa média real de Fed Funds de zero ao longo de todo o próximo ciclo econômico.

O documento ressalva que isso não significa que o Fed não elevará a taxa básica real acima de zero em nenhum momento. Mas, supondo a possibilidade de que a ameaça de mais uma recessão possa obrigar o BC americano a levar de novo os Fed Funds nominais a praticamente zero (depois de um período de normalização), a taxa média real ao longo do ciclo econômico pode ser zero.

A visão econômica do “The Bank Credit Analyst”, na qual se baseiam as previsões acima, é muito pessimista. A consultoria nota que “o hiato do produto continua muito alto, e, apesar das fanfarras de que o nível de emprego agora retornou ao seu pico pré-crise, o número de trabalhadores de tempo integral empregados ainda está 3,1 milhões abaixo do pico em novembro de 2007”.

Assim, citando estudo do FMI pelo economista Andrew Levin, que foi assessor de Janet Yellen, chair do Fed, o relatório da consultoria nota que o “hiato total do emprego” caiu apenas pela metade em relação ao seu pior momento em 2009. O hiato total leva em consideração o desemprego, a taxa de participação (população economicamente ativa em relação à população em idade de trabalhar) e o emprego de tempo parcial. Isto, por outro lado, se reflete na ausência de qualquer pressão inflacionária de natureza salarial nos Estados Unidos.

Segundo a consultoria, “a implicação é que o Fed provavelmente não vai começar tão cedo a elevar os juros; e, quando de fato começar, o nível de juros que será alcançado pode acabar sendo mais baixo do que o esperado pelo mercado”.

O documento ainda estima que a demanda, na ausência de mais uma bolha residencial estimulada por crédito, deve permanecer 3% do PIB abaixo do nível pré-crise, o que forçará o Fed a manter os Fed Funds reais em zero ao longo do próximo ciclo econômico.

O estudo considera que uma das razões principais pelas quais a taxa neutra nos Estados Unidos caiu foi uma mudança comportamental do consumidor americano. Segundo o documento “o trauma da Grande Recessão minou a mentalidade de ‘compre até cair’ (“shop till you drop”) de antes da crise; à medida que as pessoas tornaram-se menos interessadas em absorver novas dívidas e ficaram mais focadas em tomar passos para garantir sua segurança financeira futura, a preferência intertemporal (“time preference) caiu”.

A preferência intertemporal é quanto de consumo futuro uma pessoa exige para adiar consumo presente. Quanto maior, indica mais propensão ao consumo presente.

Em relação à área do euro, a consultoria é ainda mais pessimista, prevendo uma “japanização”. “Se a taxa neutra é baixa nos Estados Unidos, é ainda mais baixa na zona do euro, onde o crescimento potencial é mais lento e o processo de desalavancagem está menos avançado”, diz o relatório.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/7/14, quarta-feira.

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