Larry Summers acha só QE não resolve

Fernando Dantas

23 de janeiro de 2015 | 12h41

Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos e um dos economistas mais prestigiados do mundo, disse hoje no Fórum Econômico de Davos que não espera que o programa de afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) a ser anunciado hoje pelo Banco Central Europeu (BCE) tenha um efeito decisivo para impulsionar a economia da zona do euro. Ressalvando que é a favor do QE europeu, Summers listou razões pelas quais a iniciativa na Europa deve ter menos efeito do que os programas similares realizados nos Estados Unidos desde a crise global.

Ele notou que os programas americanos funcionaram melhor quando as primeiras rodadas foram realizadas, tendo um elemento surpresa que é muito importante, ajudando a por em funcionamento mercados financeiros que ainda estavam desfuncionais e gerando efeitos através do canal relativamente desimpedido do mercado de capitais.

Na zona do euro, nenhuma dessas condições está presente. Não há o mínimo elemento surpresa, depois de anos de programas desse tipo nos Estados Unidos e Japão e exaustivas discussões na Europa sobre a conveniência de fazê-los; o mercado financeiro europeu já foi normalizado há muito tempo, e o canal de crédito no continente é bancário, e não o mercado de capitais. O problema, explicou Summers, é que o sistema bancário europeu, apesar de funcional, está “entupido” por questões regulatórias.

Essa é uma queixa que se ouve muito em Davos este ano. Segundo Ana Botín, presidente mundial do banco Santander, o grupo dos maiores bancos europeus dobrou o capital desde 2007, mas os ativos se mantêm aproximadamente no mesmo nível.

Summers, Botín e a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, participaram esta manhã de um debate sobre o fim do afrouxamento quantitativo nos Estados Unidos e sobre a perspectiva de subida da taxa básica de juros americana. Sintomaticamente, porém, acabou-se discutindo mais sobre a Europa e a iminência do início de um programa amplo de afrouxamento quantitativo na zona do euro (cujos detalhes estão previstos para serem anunciados hoje pelo presidente do BCE, Mario Draghi).

Summers, proponente da tese da “estagnação secular”, que vê sérios obstáculos pela demanda ao crescimento dos países ricos que antecedem a crise global, criticou severamente a abordagem das autoridades econômicas europeias aos problemas econômicos do continente. Para ele, a combinação de QE com reformas estruturais – estas especialmente nos países da periferia – não é suficiente para tirar a zona do euro da armadilha de estagnação deflacionária.

O economista afirmou que a Europa coletivamente tem espaço para praticar uma política fiscal expansionista. “A decisão de ter uma moeda comum sem ser acompanhada pela decisão de se usar o espaço fiscal comum é irresponsável”, atacou Summers.

A discussão está ligada ao fato de alguns países da zona do euro – entre os quais o mais importante é a Alemanha – têm contas públicas sólidas o suficiente para praticar uma política fiscal expansionista. Outros, porém, especialmente a chamada “periferia” mais afetada pela crise do euro, não tem a mesma margem de manobra. Na visão de economistas como Summers, em termos coletivos, pela solidez da Alemanha e de outros países da zona do euro, haveria espaço para expansão fiscal na zona do euro para dar suporte à recuperação. Ele particularmente enfatiza o investimento público, quando o custo de financiamento está extremamente reduzido pelas taxas de juros historicamente baixas.

O economista atacou a ideia da zona do euro como um todo adotar a política orientada à exportação da Alemanha. Summers usou uma metáfora simples para ilustrar que o que é bom para um país pode ser prejudicial se todos adotarem a mesma estratégia. Se alguém se levanta num plateia, tem uma visão melhor. Se todos se levantam, ninguém melhora a visão e todos ficam mais desconfortáveis.

Lagarde, porém, retrucou que “a Europa ainda não chegou ao ponto político de ter uma política fiscal comum”. Ela e outros debatedores enfatizaram a importância das reformas estruturais, com a Espanha – que vem apresentando sinais de recuperação, apesar do desemprego ainda muito alto – como exemplo de sucesso.

Outro ponto bastante repisado nos debates de Davos é que o QE europeu pode ter mais efeito pelo canal cambial, com a desvalorização do euro, do que propriamente estimulando o crédito na zona do euro.

(fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

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