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LC Mendonça de Barros vê excesso de pessimismo

Fernando Dantas

14 de março de 2014 | 19h15

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros detecta um excesso de pessimismo nas suas conversas com analistas de mercado. “Parece que o País está à beira do cataclismo”, ele observa.

Mendonça de Barros, à frente da gestora Quest, e que ocupou cargos de importância na era tucana, como presidente do BNDES e ministro das Comunicações, lembra-se da venda da Brahma para o Garantia por cerca de US$ 50 milhões em 1989, numa má fase da economia brasileira. “Baixou o apavoramento e a família que tinha a Brahma fez um dos piores negócios de que se tem notícia”. Ele acha que o mesmo pode acontecer com quem comprar os cenários muito catastrofistas para o Brasil hoje.

Em termos políticos, o economista considera que não há chances de uma radicalização num eventual segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, que levasse à deterioração institucional semelhante à da Venezuela ou da Argentina. “O PT possivelmente já está no fim do seu ciclo político, com quase 12 anos de poder, o que causa enfraquecimento e leva a divisões internas”, raciocina Mendonça de Barros.

Isso não quer dizer, porém, que ele preveja a derrota de Dilma. Para o economista, caso seja reeleita, a presidente viverá o dilema de ajustar a política econômica ou conviver com taxas anuais de crescimento em torno de 1,5%. Neste último caso, ela estaria cavando uma derrota do PT nas eleições subsequentes, porque o mercado de trabalho, esteio da popularidade do governo, não resistiria a mais quatro anos de baixo crescimento.

Outros fatores de segurança política, para Mendonça de Barros, são a presença centrista do PMDB na coligação governista e o fato de que o ciclo populista na Argentina e na Venezuela, na sua opinião, está perto do fim. “São experiências derrotadas, e não vitoriosas”.

Na economia, ele acha que o Brasil experimenta problemas clássicos de fases posteriores a longos ciclos de crescimento. O governo Lula aproveitou a ociosidade de fatores e a folga nos constrangimentos macroeconômicos, como um desemprego de 11% no seu início e um superávit em conta corrente que chegou a superar os 2% do PIB, para promover um crescimento baseado no consumo, mas com pouca atenção ao investimento.

Dilma herdou um economia já muito mais próxima da saturação e, num erro grave de diagnóstico, optou por tentar reavivá-la com estímulos como a política de desoneração tributária. Com isso, a política econômica perdeu a sincronia com o ciclo político, obrigando o governo a puxar as rédeas monetária e fiscal perto das eleições.

Mas o problema maior, para Mendonça de Barros, é que, diferentemente de Lula, Dilma estabeleceu uma relação ruim com o setor privado. “Converso com empresários, e eles falam muito mal do governo, mais mal até do que seria justo”, diz o economista.

Assim, a mudança fundamental num eventual segundo mandato da presidente seria refazer os laços com o setor privado. “É preciso escolher uma equipe econômica que seja respeitada e que tenha condições de fazer esse reatamento”, ele diz. O novo time, continua, não deveria incluir “economistas que veem o Estado como comandante do processo econômico”.

A grande dificuldade, para Mendonça de Barros, é que Dilma partilha dessa visão estatista e, num eventual segundo mandato, já sem a pressão da reeleição, talvez seja ainda mais difícil convencê-la a mudar de rota. Por outro lado, o economista está convicto de que a manutenção da atual política econômica levará a um crescimento medíocre, que deve ter impactos na popularidade e no cacife político do PT. Assim, ele acredita que haverá pressões das lideranças do partido por mudanças.

Mendonça de Barros julga que uma virada para uma abordagem mais ortodoxa é muito mais provável (inclusive com sinais de que Lula opera nesta direção) do que uma radicalização heterodoxa. Por outro lado, ele avalia que também há chances de que, num eventual segundo mandato, Dilma não mude, ou tente mudar mas seja mal sucedida.

No caso de eleição de um dos dois candidatos de oposição, Aécio Neves ou Eduardo Campos (com Marina), o economista considera bem mais provável uma mudança da política econômica na direção que defende.

Em resumo, seria uma recomposição da confiança do setor privado, para que este voltasse a investir e liderasse uma nova etapa de crescimento em base diferentes do boom de consumo até 2010. Neste caso, ele alerta, haverá uma transição difícil de dois ou três anos. O consumo mais contido pode garantir 1,5% do PIB, e o aumento do investimento pode gradativamente elevar o resultado como um todo, para 2, 2,5%, 3% – mas ainda haverá crescimento medíocre por algum tempo.

Porém, à medida que a transição for sendo vencida, Mendonça de Barros vê grandes oportunidades no Brasil. “A demanda ainda existe, muita demanda reprimida, e o problema foi que se descuidou de dar condições à oferta de acompanhar – no momento em que isso ocorrer, os empresários vão entrar de cabeça”, ele prevê.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada na quinta-feira, 14/3/14, pela AE-News/Broadcast.

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