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Leve sinal de piora no mercado de trabalho

Fernando Dantas

29 de setembro de 2014 | 23h57

A divulgação da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de agosto, com a inclusão retroativa aos últimos meses das regiões metropolitanas que haviam ficado de fora por causa da greve, dá os primeiros e ainda pequenos sinais de que o forte desaquecimento da economia brasileira está chegando ao mercado de trabalho medido por essa pesquisa do IBGE. A PME abrange as seis principais regiões metropolitanas do País.

Como se sabe, o mercado de trabalho no Brasil é aferido com diferentes termômetros, que nos últimos tempos têm registrado temperaturas um tanto quanto díspares. O desaquecimento já bateu de forma bem mais expressiva nos dados do Caged, o registro de abrangência nacional do Ministério do Trabalho dos empregos formais. A Pnad Contínua (também de escopo nacional) mostra desemprego em nível mais alto do que o da PME, mas com maior geração de vagas de trabalho. Além disso, a Pnad Contínua não registra, como a PME, um desempenho tão ruim da população economicamente ativa, PEA (-0,8% em 12 meses).

Como indica o economista Rafael Bacciotti, da consultoria Tendências, os números dessazonalizados da PME mostram um desemprego em tendência de alta muito moderada, mas ainda assim bem definida, nos últimos meses. Entre junho e agosto, o desemprego da PME, livre de influências sazonais, subiu de 4,6% para 5%.

Já o economista e consultor Alexandre Schwartsman observou em relatório divulgado hoje que o crescimento do emprego foi negativo em agosto (0,4%) e ficou praticamente zerado no acumulado do ano até o mês passado.

Outro fator digno de nota nos dados da PME de agosto foi a alta, em relação a julho, da PEA que, como mencionado acima, vinha mostrando queda. A PEA em agosto cresceu 0,9% em relação ao mês anterior ou, com a dessazonalização da Tendências, 0,4%. Schwartsman não pareceu se impressionar muito com este dado, destacando em seu relatório que a PEA em agosto caiu 0,7% em relação ao mesmo mês do ano passado, e registra um recuo de 0,9% no acumulado do ano.

De qualquer forma, alguns analistas, como Bacciotti e Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, levantam a hipótese de causas econômicas para a alta da PEA em agosto, em relação a julho. Azeredo, como apurou a repórter Idiana Tomazelli, da Agência Estado, disse que a volta de pessoas ao mercado de trabalho (a PEA é formada pelos empregados e os que buscam emprego) pode estar relacionada à redução do poder de compra nos meses anteriores. Já Bacciotti acha que pode ser um efeito do “ambiente econômico mais adverso”.

O economista da Tendências lembra que o fraco desempenho da PEA recentemente tende a ser atribuído, entre outras causas, ao fato de que o aumento de renda nos últimos anos permitiu aos jovens postergar a entrada no mercado de trabalho. Agora, com perspectivas econômicas menos brilhantes para as famílias, poderia estar se iniciando um movimento de retorno ao mercado de trabalho.

O grande ponto de interrogação, de qualquer forma, é sobre a evolução futura do mercado de trabalho nas suas variáveis mais importantes, como a criação de empregos, o desemprego e a trajetória da renda.

Bacciotti prevê que a taxa média de desemprego da PME vai subir de algo em torno de 4,9% em 2014 para 5,5% em 2015.  “Não é um aumento explosivo, mas uma alta gradual”, ele diz.

Em relação à renda, é curioso que, na verdade, ela esteja em recuperação nos últimos meses. Segundo as contas do economista Fernando Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, a renda real acumulada em 12 meses cresceu paulatinamente de 2,3% em abril deste ano para 2,7% em agosto. Em janeiro de 2013, este indicador estava em 4%, mas caiu para 1,8% em novembro do mesmo ano.

Agora, porém, com a perspectiva de que de fato o aperto do mercado de trabalho comece a perder força, alguns analistas acham que a renda pode ser afetada. A projeção de Bacciotti, por exemplo, é de um crescimento médio da renda real efetiva (inclui todos os adicionais em relação ao salário mensal) de 2,3% em 2014 e de apenas 1% em 2015.

“A ociosidade ainda baixa no mercado de trabalho explica porque os salários nominais continuam em expansão, mas a combinação de fraqueza na criação de emprego e retorno de pessoas ao mercado de trabalho, aumentando o desemprego, tende a limitar o aumento da renda”, ele diz.

Barbosa Filho nota que a recuperação da renda real na PME nos últimos meses é em boa parte influenciada por um excepcional desempenho da região metropolitana do Rio de Janeiro, onde a taxa de desemprego caiu para 3% e registra-se uma alta real dos salários acumulados em 12 meses até agosto de 6,7%. Este desempenho pode estar ligado às obras direta e indiretamente voltadas para a Olimpíada em 2016. Em contraste, aquele mesmo indicador em São Paulo é de 1,8%.

Por outro lado, o pesquisador do Ibre diz que há um fator estrutural dando suporte ao crescimento da renda no Brasil, que é o fato de que a qualificação média da força de trabalho está aumentando. “Cerca de 1,6% do aumento real anual da renda vem da melhora educacional, e para interromper esse processo teria de acontecer uma recessão muito forte”, ele conclui.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 25/89/14, quinta-feira.

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