Levy e o “remédio amargo”

Mercado se preocupa com fato de que permanência de Joaquim Levy no comando da economia tenha sido posta em questão tão cedo.

Fernando Dantas

26 Maio 2015 | 11h02

O imbróglio do não comparecimento de Joaquim Levy ao anúncio do contingenciamento de R$ 69,9 bilhões na sexta-feira, 22/5/15, deixou o mercado preocupado. Não estava no script imaginado pela maioria a possibilidade de que o baluarte da virada ortodoxa da política econômica no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff pudesse ter sua permanência no governo colocada em questão tão cedo.

Como diz Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, “essa é uma carta que o Joaquim Levy não pode puxar muitas vezes, e com certeza haverá novas derrotas pela frente”.

O episódio reflete a grande confusão política e ideológica que tomou conta do País em função do grau extremo com que a presidente Dilma Rousseff contradisse seus compromissos de campanha eleitoral com o curso de ação escolhido para o segundo mandato.

Pelo seu perfil como economista e homem público, Levy é a antítese absoluta das teses históricas sobre economia caras ao PT e à sua militância. A sua escolha como homem chave do segundo mandato de Dilma, com a missão de resgatar a credibilidade e a qualidade da política econômica na ótica ortodoxa e dos participantes do mercado financeiro, iria ser complicada em qualquer cenário.

Mas a brutal e velocíssima queda da popularidade da presidente Dilma, aliada à sempre conturbada relação entre PT e PMDB, descarrilou qualquer estratégia política que o governo possa ter arquitetado para a difícil travessia do ajuste econômico. As medidas do ajuste fiscal agora dependem das articulações e manobras de operadores políticos como os presidentes da Câmara e do Senado, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que nunca se destacaram em suas trajetórias políticas pela ênfase em ideologias ou programas de governo. A escalação do vice-presidente Michel Temer para a articulação política ajuda, mas está longe de resolver o problema.

É com este pano de fundo que devem ser avaliadas as sucessivas derrotas e contrariedades que Levy vem sendo obrigado a absorver. As medidas mais estruturais de podar aspectos excessivamente generosos de programas como seguro-desemprego, pensão por morte e abono salarial estão sendo depenadas no Congresso, e devem perder boa parte do seu potencial de corrigir aqueles programas e compatibilizá-los com uma racionalidade fiscal de longo prazo. A reversão na prática da desastrada desoneração da folha salarial introduzida no mandato anterior também está ameaçada.

Diante desses percalços, um contingenciamento mais próximo a R$ 80 bilhões teria o valor simbólico de sinalizar uma disposição férrea de cumprir as metas fiscais, independentemente da colaboração do Congresso. Mas para que essa estratégia tivesse o efeito desejado de criar um clima mais sóbrio e preocupado entre os parlamentares, que os levasse a apoiar o ajuste como necessidade imperiosa numa situação crítica, seria preciso enfatizar o tempo todo a gravidade da atual situação. E está é uma batalha que Levy parece estar perdendo, já que os primeiros efeitos concretos da recessão em termos de desemprego e outras notícias ruins no front econômico já estão empurrando setores do governo e boa parte do PT a questionar todo o programa do ministro da Fazenda e a acenar para a sociedade com a possibilidade de um ajuste curto seguido de uma retomada que viria em breve.

Que esse desafio a Levy tenha sido encampado publicamente por um senador com conhecida proximidade com o ex-presidente Lula como Lindbergh Farias (PT-RJ) deve soar como uma afronta ao ministro da Fazenda e representa uma rajada particularmente virulenta de fogo amigo. A ambiguidade de Lula, que parece ao mesmo tempo mentor e crítico do ajuste, só adiciona graus adicionais de confusão a uma situação já bastante conturbada. No fundo, entretanto, todos esses problemas são subprodutos da violenta contradição entre a opção de política econômica representada por Levy e a campanha de Dilma e a ideologia histórica do PT.

Uma grande questão é a de qual seria o cenário no caso da saída de Levy. Um possível substituto seria Nelson Barbosa, atual ministro do Planejamento, um heterodoxo moderado com grande capacidade de trabalho dentro da máquina pública que talvez não sofresse maiores objeções do mercado em tempos econômicos mais corriqueiros.

O problema, porém, como coloca Solange, da ARX, é que, independente dos méritos do eventual substituto, “a saída de Levy será vista pelo mercado como a derrota do modelo que ele defende e que hoje é visto como o único capaz de evitar o caos – o ministro é um remédio amargo, mas que tem de ser engolido”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast 

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 25/5/15, segunda-feira.