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Levy, o político

Habilidade política será fundamental para o sucesso de Joaquim Levy no comando da nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff. Até agora, ele vem dando mostras de possuí-la.

Fernando Dantas

09 de janeiro de 2015 | 18h14

Na largada da sua gestão como ministro da Fazenda, Joaquim Levy vem mostrando a habilidade política que será indispensável para o sucesso da sua receita econômica.

O desafio é enorme: implementar uma política de corte ortodoxo e liberal num governo de esquerda, que renovou o seu mandato com uma campanha particularmente panfletária em seus ataques ao suposto “neoliberalismo” dos adversários.

As comparações com os anos iniciais do governo Lula, em que a Fazenda esteve nas mãos de Antônio Palocci, não dá conta de todas as dificuldades que Levy enfrentará. As diferenças para pior são muitas. O novo ministro não é um quadro político do PT, e não houve previamente à sua escolha algo como a “Carta ao Povo Brasileiro” da campanha de Lula – muito pelo contrário. Além disso, o País enfrenta agora o fim de um ciclo de alta das commodities, e não a antevéspera do seu início, como na gestão Palocci. A travessia pode ser bem mais longa antes que se chegue a algo com os anos dourados de crescimento da era Lula.

Assim, as qualidades políticas de Levy podem ser tão ou mais importantes que o seu irretocável perfil técnico.

Para Sergio Vale, economista da MB Associados, “o Levy está se saindo bem mais político do que eu imaginava, e parece ter aprendido muito rápido que, no governo Dilma, é preciso muito cuidado com o que se fala”. Ele compara com o ocorrido com o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que mencionou a possibilidade de mudar a sistemática de reajuste do salário mínimo e teve de voltar atrás, por determinação da presidente.

“A impressão é de que o Levy percebeu que no governo Dilma é preciso convencer internamente, especialmente a presidente, e apenas depois, e de forma pré-combinada, anunciar – ele disse inclusive que não dará entrevista em porta de Ministério”, continua Vale.

Curiosamente, a percepção sobre a habilidade política de Levy do economista da MB Associados convive com opiniões como a de Tiago Berriel, professor da PUC-Rio e economista-chefe da gestora Pacífico, para quem o discurso de posse do novo ministro da Fazenda “foi surpreendentemente sem concessões à equipe antiga”.

Para Berriel, as entrelinhas do discurso continham muitas críticas à política econômica do primeiro mandato de Dilma, com foco no descontrole fiscal e nas intervenções excessivas na economia, que Levy deixou claro que agora seriam eliminados. O economista da Pacífico notou ainda que a justificativa da crise internacional para os problemas econômicos brasileiros – o grande mote da campanha eleitoral e da antiga equipe econômica – passou longe do pronunciamento do Levy.

De certa forma, talvez seja um testemunho da habilidade política do ministro da Fazenda a capacidade de agradar ao mercado sem simultaneamente desagradar à presidente.

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, também acho que o discurso de Levy sinalizou uma grande mudança em relação à política econômica do primeiro mandato. Ao criticar o patrimonialismo, ecoando a fala inaugural da presidente contra a corrupção, o ministro da Fazenda conseguiu puxar o tema para a seara econômica. Na visão de Kawall, foi uma forma de se colocar contra a política de subsídios, desonerações e tratamentos especiais para setores escolhidos para serem beneficiados, o que contraria a ideia de um Estado impessoal que busca uma relação mais equânime não só com as pessoas mas também com a multiplicidade de atores institucionais com os quais interage.

“De uma maneira bastante elegante, o Levy deu o recado de que a sua gestão no Ministério da Fazenda vai ser bem diferente daquela que aconteceu agora no governo Dilma”, resume o economista.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 7/1/15, quarta-feira.

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