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Liberais em companhia perigosa

Episódio de Roberto Alvim, secretário de Cultura demitido hoje, mostra contaminação fascista no governo Bolsonaro e reforça argumento dos que veem risco à democracia com o atual presidente.

Fernando Dantas

17 de janeiro de 2020 | 18h54

Segundo matéria de Adriana Fernandes, do Estadão, a equipe econômica, fazendo as malas para Davos, está preocupada com a repercussão negativa do pronunciamento de inspiração nazista de Roberto Alvim, ex-secretário especial da Cultura, demitido hoje.

Para alguns pensadores sobre o atual panorama político brasileiro, entretanto, a preocupação dos liberais da área econômica do governo deveria ser outra, e poderia ser expressa na formulação popular “onde fui amarrar meu burro”.

Desde a campanha eleitoral, há uma discussão sobre o risco à democracia representado por Bolsonaro, um político que é defensor fervoroso das ditaduras do Cone Sul dos anos 60 aos 80, e que já defendeu também a tortura e o assassinato pelo Estado de inimigos políticos.

Os filhos de Bolsonaro e o bizarro ideólogo Olavo de Carvalho, que dão o tom à famigerada ala ideológica do governo, flertam abertamente com ideias antidemocráticas, como a declarada afinidade com autocratas do Leste Europeu, do tipo de Viktor Orbán, da Hungria.

O episódio de Alvim, evidentemente, reforça esses temores.

Como nota o cientista político Cláudio Couto, da FGV/EAESP, o problema com Alvim não se esgota na fala repulsiva em que o secretário parafraseou discurso do infame e genocida Joseph Goebbels, o “marqueteiro de Hitler”.

A concepção em si de cultura de Alvim e o prêmio nacional de artes anunciado pelo secretário são completamente afinados com a visão nazifascista da cultura, como expressão da “alma do povo” canalizada pelo governo de forma “imperativa” para dar “energia e impulso” à “construção de uma nova e pujante civilização brasileira” – cujos predicados, evidentemente, são definidos pelo governo, idealmente  uma ditadura totalitária.

Tirando a grotesca grandiloquência fascista, o que sobra do pronunciamento é o anúncio por Alvim de um programa para usar dinheiro público com o objetivo de “promover arte ideologicamente alinhada ao governo”, como observa Couto. Isso, para ele, é uma “censura às avessas”, tão grave quanto a censura em si.

Se não fosse a insanidade de anunciar o “prêmio nacional” com um discurso parcialmente inspirado em Goebbels, é  bem capaz que Alvim seguisse em frente com seu projeto fascista de incentivar uma arte “nacional” alinhada à visão de mundo do governo. Agora, anunciada  a queda do secretário da Cultura, Couto se pergunta o que será feito do prêmio nacional.

Mas o cientista político considera que o caso de Alvim “não é um raio em céu azul”, e considera que o secretário verbalizou de forma explícita a forma de pensar e agir de muitos no governo.

Couto diz que classifica Bolsonaro como fascista desde que começou a escrever sobre o político, com sua ascensão ao cenário nacional, em 2017. Segundo o cientista político, há na ideologia do presidente vários elementos do fascismo, como o culto à violência, a negação absoluta do adversário, o tipo de “nacionalismo” de Alvim e até a estética.

Mas ele distingue entre um “governo fascista” e um “regime fascista”.

O Brasil não tem um regime fascista porque é uma democracia, mas, na sua visão, há uma porção fascista considerável no governo.

“E um fascismo subletrado, mas não deixa de ser fascismo”, diz Couto.

Assim, o cientista político vê o liberalismo da área econômica como uma corrente quase que isolada dentro do governo.

No debate sobre se as instituições estão funcionando para conter os ímpetos autoritários (e fascistas, na visão de Couto) do governo, o pesquisador diz que há resistência institucional, mas acrescenta que o estresse máximo permanente a que estão sendo submetidas tende gradativamente a desgastá-las. E, num segundo momento, enfraquecidas, as instituições podem não resistir à ofensiva antidemocrática do governo. Na verdade, em áreas com meio ambiente, laicismo do Estado e retórica presidencial pró violência, o cientista político já vê os freios falhando, com a consequente erosão da democracia.

Este colunista tem dúvidas sobre se a visão de Couto talvez não seja um pouco exagerada. Bolsonaro demitiu Alvim no mesmo dia, e emitiu nota repudiando ideologias “totalitárias e genocidas” e dando apoio “total e irrestrito” à comunidade judaica (a conversa com o cientista político se deu antes da divulgação da nota do governo).

De qualquer forma, episódios como o de Alvim dão um calafrio na espinha. É bom prestar mais atenção a quem, como Couto, vê um grande risco à democracia brasileira no governo Bolsonaro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.danta@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/1/20, sexta-feira.

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