Liberalismo está quase órfão na eleição

Adesão de candidatos populares como Lula e Ciro às ideias da nova matriz mostra que a muito difundida crítica liberal a essa fracassada política econômica não chegou ao eleitor mediano brasileiro.

Fernando Dantas

01 de abril de 2022 | 18h24

Desde antes da megarrecessão de 2014-16, uma profusão de economistas de inclinação liberal e ortodoxa criticava a política econômica que nasceu tímida na chegada de Guido Mantega à Fazenda em 2006, ganhou força como reação à crise financeira global de 2008-09 e se radicalizou no primeiro mandato de Dilma Rousseff.

A fase mais aguda desse conjunto de políticas intervencionistas, tanto na macroeconomia como em termos de política industrial, veio a ser conhecida como “nova matriz econômica”.

Com a brutal recessão de 2014-16 e o fiasco político e econômico do segundo mandato de Dilma (que, aliás, adotou uma agenda mais liberal), interrompido pelo impeachment, as críticas à nova matriz viraram avalanche, incluindo esta coluna.

Rios de tinta e de pixels foram empregados para esculachar a “obra” de Guido Mantega na Fazenda, Arno Augustin no Tesouro e Luciano Coutinho no BNDES. Os escândalos das pedaladas fiscais, razão formal do impeachment, turbinaram essa rejeição.

As raras defesas da nova matriz na sua íntegra ocorreram quando o próprio Mantega pós-governo foi ouvido, o que ocorreu muito pouco e não capturou minimamente a atenção.

É verdade que um grupo de economistas, como Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda (no final do governo Dilma) e Bráulio Borges, da LCA e do Ibre-FGV, buscaram contrapor uma outra visão à narrativa liberal do fiasco da nova matriz.

Essa é uma abordagem que reconhece vários erros da nova matriz, mas faz duas ressalvas importantes. Uma parcela expressiva – maior do que os liberais gostariam de admitir – das causas do debacle econômico a partir de 2015 deriva da virada no cenário internacional, com o fim abrupto do ciclo de alta de commodities em 2011/12.

A segunda ressalva é de que a fase de crescimento anêmico que se seguiu à nova matriz e dura até hoje – interrompida apenas pelas fortes oscilações para baixo e para cima associadas à pandemia em, respectivamente, 2020 e 2021 – teria sido causada em porção significativa por uma dose excessiva da medicação ortodoxa de aperto fiscal, parafiscal (contração do BNDES) e monetário a partir de 2015-16.

Assim, nessa visão, o modelo de política econômica mais ortodoxo e liberal reimplantado no governo Temer e continuado – de forma supostamente mais radical e certamente muito mais inepta e bagunçada – no governo Bolsonaro também tem parcela de responsabilidade pela horrível década (segundo do atual século) perdida recente.

Um dos principais pontos de discordância entre os liberais e esse último grupo de economistas mencionado na coluna, que chamaremos por praticidade de “heterodoxos light”, é o teto de gastos. Para os primeiros, mesmo que necessite alguma mudança, foi um grande acerto. Para os últimos, mesmo sendo necessário algum mecanismo de controle de gastos, foi um grande erro.

Ainda que os heterodoxos light tenham montado uma história coerente e conseguido espaço nos meios de comunicação para defendê-la, é certo que, quando se pensa na filtragem desse debate pela opinião pública, a nova matriz terminou desmoralizada e virou quase um palavrão. O bombardeio crítico dos liberais foi bem mais volumoso e alcançou repercussão bem maior que os matizes introduzido pela abordagem heterodoxa light.

É exatamente por isso que é curioso que a nova matriz em tudo menos no nome esteja sendo vigorosamente defendida na campanha eleitoral pelo campeão das intenções de voto, Lula, e também por Ciro Gomes, que está entre os quatro primeiros.

Já a visão liberal, frontalmente crítica à nova matriz, encontra respaldo apenas em candidatos que minguam nas pesquisas, como Doria (que ameaçou desistir ontem) ou em Sergio Moro, cujo ‘appeal’ eleitoral certamente vem da imagem de inimigo da corrupção e não da agenda econômica do seu assessor Affonso Celso Pastore. E mesmo Moro anunciou que desistiu de disputar a presidência (“por enquanto”).

E é difícil dizer que Bolsonaro hoje representa a defesa do liberalismo econômico na eleição, depois de todos os “desaforos” populistas cometidos e prometidos para este ano eleitoral.

Em termos eleitorais, portanto, a nova matriz (em tudo menos no nome) é a filha predileta enquanto a visão liberal é a enjeitada da família. Tem que haver razões para isso.

Uma possível explicação é o desempenho pífio da economia desde o governo Temer, que se tornou desastroso com a pandemia – e em grande parte ‘por causa’ da pandemia, mas esse é o tipo de filigrana que costuma escapar ao eleitor mediano. A isso se soma, reforçando essa hipótese, o estridente proselitismo liberal de Paulo Guedes, que ‘queimou o filme’ dessas ideias com o fiasco econômico do governo Bolsonaro.

Ainda assim, resta inexplicada a defesa da megafracassada nova matriz por político populares como Lula e Ciro. A ideia de que eles estão eleitoralmente errados só poderia ser levada a sério se o crítico liberal que a defendesse tivesse ainda mais intenções de voto que os dois políticos (é ironia, por favor).

Uma hipótese inevitável e algo deprimente é de que a crítica liberal à nova matriz (e também o contra-argumento dos heterodoxos light), apesar de todo o prolongado furor com que inundou páginas de opinião e seções de Economia na mídia impressa e virtual, teve pouquíssima ou nenhuma repercussão junto ao eleitor mediano.

Por outro lado, o nacional-desenvolvimentismo, talvez por remeter à fases mais esperançosas da vida nacional, parece mais próximo ao coração popular.

Assim, políticas econômicas liberais – ou mesmo ao estilo heterodoxo light – continuam a depender, como a personagem de Blanche Dubois em “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, “da gentileza de (políticos a elas) estranhos”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/4/2022, sexta-feira.