Lições da recuperação britânica

Fernando Dantas

18 de maio de 2014 | 20h48

O Reino Unido é visto como um forte candidato a ser a primeira entre as grandes economias no epicentro da bolha imobiliária e financeira que estourou em 2008 e 2009 a elevar as taxas de juros básicas do nível atual próximo a zero. Preocupado com expectativas excessivamente prematuras em relação a isso, Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra (BC britânico) procurou, em entrevista de divulgação do relatório trimestral de inflação há pouco dias, indicar que não há pressa em elevar os juros.

“Em meio à excitação de que o produto já está próximo de recuperar seu nível pré-crise, não podemos esquecer que a economia apenas começou a voltar à normalidade”, disse Carney.

De qualquer forma, a recuperação britânica é instrutiva, já que, em termos de crise global, o Reino Unido teve uma experiência em muitos aspectos parecida a dos Estados Unidos, tanto em relação à bolha do mercado residencial quanto no papel exacerbado do mercado financeiro na economia do país (o que foi um fator negativo na grande crise global).

A resposta britânica à crise global também foi semelhante à americana, com um relaxamento muito agressivo da política monetária, incluindo o chamado afrouxamento quantitativo (injeção de liquidez por meio de compra de títulos pelo Banco da Inglaterra, BC do país) e a orientação prospectiva (“forward guidance”) – Carney estabeleceu o limiar de 7% de desemprego acima do qual a alta dos juros básicos, em virtualmente zero no momento, seria totalmente descartada.

Hoje, o desemprego já está um pouco abaixo daquele nível, e a orientação prospectiva ligada primordialmente ao desemprego foi deixada de lado.

Também como nos Estados Unidos, a partir de um determinado momento, o Reino Unido embarcou num expressivo ajuste fiscal, para controlar a explosão de endividamento público legada pela crise.

Segundo Guilherme Martins, analista de Reino Unido e Europa do Itaú, o crescimento anualizado britânico está por volta de 3% ao ano e houve uma boa recuperação na situação financeira das famílias e dos governos. O mercado residencial também está em franca retomada e, na verdade, já há quem se preocupe com a possibilidade de uma nova bolha imobiliária.

Para Martins, um fator importante para a recuperação britânica foi a superação em 2012 da fase de altíssimo risco da zona do euro, com o Banco Central Europeu (BCE) adotando medidas (a partir do final de 2011) que virtualmente garantiram que países e bancos sistemicamente importantes da região não quebrariam.

Apesar de o Reino Unido não fazer parte da zona do euro, a sua economia é muito integrada à da Europa continental, e o alívio fornecido principalmente pelo BCE (outras medidas foram tomadas também pelas instituições envolvidas com os países problemáticos do euro) foi um estímulo positivo à economia britânica.

Um aspecto interessante da recuperação britânica é que ela demonstra que o ajuste fiscal não é incompatível com a retomada. É claro que, no curto prazo, a contração das despesas públicas prejudica a demanda e freia a economia – isto é consensual é um fator sempre levado em conta pelos analistas em suas projeções.

Por outro lado, finanças públicas em péssimo estado podem ser uma fonte de problemas e até um fator limitador do crescimento no longo prazo. Assim, na visão de parte de economistas, e que predominou na maioria dos países, era preciso fazer uma sintonia fina do ajuste fiscal, evitando muita perda de produto no curto prazo, mas garantindo também finanças públicas sustentáveis num horizonte mais largo.

Economistas como o prêmio Nobel Paul Krugman foram fortemente críticos do programa de ajuste fiscal no Reino Unido, pelo risco de impedir a recuperação. Para Martins, “o Reino Unido fez austeridade, o que ajudou a estabilizar o déficit, e agora a economia está se recuperando – as previsões alarmistas não se concretizaram”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/5/14, quarta-feira

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