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Lições de eventual vitória de Biden

Se favoritismo do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos se confirmar em 3/11, será um sinal de que moderação e centrismo podem ser um caminho para derrotar populistas de direita.

Fernando Dantas

27 de outubro de 2020 | 11h47

A eleição presidencial norte-americana se aproxima com grande favoritismo de Joe Biden sobre Donald Trump. É bom, porém, colocar as barbas de molho, porque há quatro anos o favoritismo era conferido à candidata democrata Hillary Clinton, que acabou derrotada pelo atual presidente.

Ainda assim, é de se supor que os institutos de pesquisa tenham aprendido com a “barriga” de 2016 e refinado suas metodologias, particularmente no contexto do complexo sistema eleitoral americano, em que nem sempre o vencedor no voto popular (como Hillary) são vitoriosos no colégio eleitoral.

Assim, a essa altura do campeonato, trabalhar com cenário mais provável de vitória de Biden parece uma aposta razoável. Caso isso ocorra, qual o significado para o Brasil presidido por Jair Bolsonaro?

Alguns analistas julgam que, como Bolsonaro sempre se espelhou em Trump e faz parte de uma onda internacional de eleição de populistas de direita, a possível derrota do americano no dia 3 de novembro será um golpe político no presidente brasileiro.

Essa abordagem ignora o quanto o Brasil, país populoso e de grande território, é um mundo em si mesmo e muito voltado para dentro (aliás, como os próprios Estados Unidos).

Mesmo fazendo parte de uma tendência internacional, a eleição de Bolsonaro tem características nacionais extremamente particulares – como, aliás, detalhado no recém-lançado livro do cientista político Jairo Nicolau (FGV-Rio), “O Brasil dobrou à direita/Uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018”.

O eleitor mediano brasileiro é muito menos ligado, comparado à elite intelectual do País, nas peripécias da vida política norte-americana, e provavelmente não dará tanta importância para uma eventual derrota de Trump.

Há, entretanto, um aspecto em que a atual eleição nos Estados Unidos pode encerrar lições importantes para quem milita na política no Brasil.

Se confirmados os prognósticos da vitória de Biden, a aposta do Partido Democrata numa candidatura mais centrista para enfrentar o populismo de direita terá se revelado correta.

O sucesso até agora da campanha de Biden não era nada evidente há alguns meses, quando ainda se decidia nas primárias qual seria o candidato democrata.

Parecia que candidatos mais à esquerda, como Elizabeth Warren e Bernie Sanders, confrontariam de forma mais contundente o populismo de direita de Trump.

Sanders, em particular, político carismático e orador ardente, com forte “bússola moral”, como dizem os americanos, era visto como alguém mais capaz de desmontar a empáfia, a mal disfarçada indecência e as mentiras de Trump num debate.

Mas essa visão se esquece da grande distância que há, especialmente nos Estados Unidos, entre o eleitor mediano e parte significativa das pautas de esquerda hoje em dia.

Há dissonância especialmente em relação ao chamado eleitorado “woke”. A expressão que dizer “desperto” em inglês, e significa militantes políticos particularmente voltados a questões sociais e justiça racial.

Em princípio, parece algo bastante afim aos anseios do eleitorado em geral. O problema é que os woke tendem a radicalizar, e questões como os pronomes com que devem ser tratados pessoas que se declaram não binárias sexualmente assumem importância desproporcional, afastando o eleitor mediano, que normalmente é mais convencional.

Biden é um político democrata tradicional, centrista e mais focado em bandeiras de bem estar econômico e social do que em guerras culturais. É verdade que Sanders tinha foco em bandeiras semelhantes, mas o simples fato de o senador por Vermont atrair o público mais à esquerda já lhe dava um perfil menos tranquilizador para o eleitor mediano.

É verdade, por outro lado, que Biden está se apresentando com uma plataforma bem à esquerda, principalmente em temos econômicos, dado o seu perfil centrista.

Na esteira da reavaliação da importância do papel do Estado em função da pandemia, o candidato democrata tem planos de maciços gastos públicos em infraestrutura, habitação, escolas, faculdades e transporte, com uma forte visão do governo como criador de postos de trabalho.

Biden vai retomar com força a ideia de um seguro público de saúde nos Estados Unidos, aprovada por Obama e sabotada por Trump, e gastar e regular decididamente no front do aquecimento global.

Porém, como notou o jornalista e blogueiro Matthew Yglesias em recente artigo no site “Vox”, a puxada à esquerda da plataforma de Biden espelha uma virada à esquerda do eleitorado como um todo. Não se trata, portanto, de forçar a mão nas propostas, mas de acompanhar o que já está latente na sociedade.

Dessa forma, Biden ainda respeita muitos limites, não esposando algumas bandeiras caras aos woke, mas que seriam vistas com desconfiança pela população em geral.

Um exemplo, na esteira dos casos de violência policial nos Estados Unidos, especialmente contra negros e outras minorias, é o chamado “defund the police”. A ideia é simplesmente diminuir as verbas gastas com a polícia e desviá-las para serviços sociais e outros dispêndios públicos.

Biden não adotou a bandeira, mas quer tornar os policiais mais responsabilizáveis por atos de violência, reforçar a fiscalização federal sobre as polícias e condicionar recursos ao retreinamento, com foco em como lidar com minorias.

Já na área ambiental, Biden não adotou ideias mais radicais como a proibição do “fracking” (fraturamento hidráulico, método empregado na extração de petróleo de xisto, “shale oil”, e considerado prejudicial ao meio ambiente) ou da energia nuclear.

Em resumo, mesmo com algumas bandeiras bem à esquerda, acompanhando o estado de espírito do eleitorado, Biden é um político percebido com centrista e moderado, o que dá confiança ao eleitor mediano.

Quando chegar a hora de lançar candidatos para enfrentar Bolsonaro em 2022, essa pode vir a ser uma lição importante.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/10/2020, segunda-feira.

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