Linhas e entrelinhas de Meirelles

Em sua primeira entrevista coletiva, Meirelles sinaliza dureza na área fiscal e determinação de ter metas críveis (gastando algum tempo para mergulhar nos números do governo), mas deixa entrever que formação de equipe está dando trabalho.

Fernando Dantas

16 de maio de 2016 | 17h28

Na sua primeira entrevista coletiva como ministro da Fazenda, Henrique Meirelles foi protocolar e falou aquilo que todos esperavam que falasse, sem grandes revelações em relação ao que já se sabia. Ainda assim, é possível extrair algum sumo de relevância no que foi dito e subentendido.

Um primeiro aspecto que chama a atenção é que não está sendo muito fácil montar a sua equipe, e montar boas equipes é justamente uma das qualidades do ex-presidente do Banco Central (BC). Ele não foi capaz de confirmar o nome de Ilan Goldfajn na presidência do BC, o que já era dado como praticamente certo por muitas pessoas próximas ao ministro. Pela manhã, Mansueto Almeida, especialista em contas públicas, escreveu em seu blog que não estava no novo governo. Seu nome, para o Tesouro, não chegou a ser dado tanto como favas contadas quanto o de Goldfajn, mas ainda assim o mercado contava ontem com a sua ida.

Uma preocupação é sobre até que ponto essa dificuldade seja reflexo da insegurança de muitos potenciais participantes da equipe de Meirelles sobre as chances de o governo de Michel Temer dar certo. O fato de que, antes dele, o também ex-presidente do BC, Arminio Fraga, tenha declinado do convite para a Fazenda também deve ter deixado muitos candidatos como as barbas de molho. Arminio em nenhum momento disse que não iria por não crer nas chances de sucesso, mas é claro que muitos podem imaginar que esta poderia ter sido uma das razões.

Não ficou claro, por exemplo, se ao dizer que “não estou dizendo se o presidente do BC será ou não (Alexandre) Tombini”, Meirelles estava querendo apenas acentuar que nada dirá sobre o assunto até segunda-feira ou se isto é uma possibilidade real – neste caso, seria um sinal relativamente sério da dificuldade de preencher posições chave na equipe econômica.

Outro aspecto que se destacou da fala de Meirelles é que o ministro da Fazenda não está, pelo menos neste início de gestão, suavizando o tom que a União adotará no ajuste fiscal. Ele deixou claro, por exemplo, que a renegociação da dívida dos Estados não deve comprometer o ajuste fiscal do governo central, e deverá ser acompanhado por medidas que imponham uma disciplina fiscal rigorosa aos parceiros subnacionais.

Na seara da reforma da Previdência, ele apelou ao discurso de que o direito fundamental é o de receber benefícios futuro, justificando as restrições que serão propostas com o fantasma de uma Previdência quebrada e sem dinheiro para pagar aposentados e pensionistas no futuro. Ele chegou inclusive a citar o caso de benefícios previdenciários estaduais que foram atrasados recentemente.

Quanto a subsídios e isenções, Meirelles disse que o governo vai respeitar o que já está contratado, mas sinalizou que estas concessões serão revistas ou eliminadas à medida que forem vencendo seus prazos de validade.

Finalmente, o ministro da Fazenda reiterou diversas vezes que precisa de algum tempo para fazer uma radiografia completa dos números e dos problemas de todos os temas que concernem a sua pasta. A ideia aqui é que, uma vez que se tenha conhecimento completo e acabado de cada um deles – isto é, o diagnóstico preciso –, serão estabelecidos objetivos e metas em relação aos quais haverá um compromisso forte e estável, de forma a guiar as expectativas de consumidores, empresários, investidores, mercado financeiro, etc. É uma promessa de transparência e confiabilidade que, se de fato cumprida, pode ajustar a restaurar os fundamentos psicológicos que despencaram e ajudaram a levar a economia brasileira para o atual abismo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 13/5/16, sexta-feira.