Locomotiva chinesa menos aquecida

Resultado do segundo trimestre e projeções indicam que crescimento da economia chinesa, depois de retomada espetacular pós-pandemia, volta ao normal, quiçá com ligeiro viés de baixa. Conversei com o especialista Livio Ribeiro, da consultoria BRCG e do Ibre-FGV.

Fernando Dantas

16 de julho de 2021 | 09h04

O crescimento chinês na saída da crise mundial da Covid-19 – em termos sanitários, o país já conteve a pandemia há um tempo razoável –, que parecia estelar, agora dá sinais de estar se normalizando.

Na verdade, os últimos números apontam até um tiquinho na direção menos exuberante, mas nada muito digno de nota, na visão do economista Livio Ribeiro, sócio da BRCG, empresa de consultoria econômica, pesquisador do Ibre-FGV e atento analista da economia chinesa.

No segundo trimestre de 2021, o PIB chinês cresceu 7,9%, ano contra ano, ligeiramente inferior à projeção mediana de mercado, de 8%. Em termos dessazonalizados, na comparação com o primeiro trimestre, a alta foi de 1,3%, acima da mediana das expectativas, de 1%. Porém, nesse caso, como explica Ribeiro, houve a influência da revisão do crescimento do 1º tri, na mesma base de comparação, de 0,6% para 0,4%.

Na verdade, o carregamento estatístico (quanto o PIB cresceria se, na margem, ficasse parado) de 2020 para 2021 caiu de 6,3% para 6%.

O economista explica ainda, em relatório publicado hoje,  que o nível do PIB dessazonalizado perdeu “a tendência pré-Covid, fato já observado no início deste ano e que se manteve mesmo após a aceleração da expansão na margem”.

Isso significa que, no segundo trimestre de 2021, o PIB chinês dessazonalizado está num nível inferior ao que estaria caso a tendência de crescimento pré-Covid tivesse sido mantida. Na verdade, o nível atingiu essa tendência no último trimestre de 2020, e foi para baixo dela no primeiro e segundo trimestres de 2021.

Ribeiro ressalva que, como é característico nas divulgações do PIB chinês, as informações iniciais são muito incompletas, e os detalhes e desagregações só vêm após algum tempo.

Assim, é prematuro arriscar um diagnóstico mais preciso do estado da economia chinesa no segundo trimestre, mas alguns sinais já podem ser detectados.

No segundo trimestre deste ano, os serviços voltaram a ser o setor que mais contribuiu para o crescimento do PIB chinês, acima da indústria. Mas o dado deve ser lido com cautela: tomando-se quase todo o período da pandemia, a partir de dezembro de 2019, os serviços, mais atingidos pelo isolamento social, ainda estão aquém da indústria.

O consumo – sem distinção entre privado e do governo, dado não disponível – foi o principal motor da economia chinesa no segundo trimestre, mas os aspectos que mais chamaram atenção de Ribeiro foram a queda da contribuição relativa do investimento e a alta da contribuição das exportações líquidas (isto é, menos importações).

“No agregado, me parece um sinal de alguma fraqueza na demanda doméstica”, diz o analista.

Assim, sua projeção de crescimento do PIB chinês em 2021, que estava em torno de 9/9,1%, foi ajustada para 8,9% (mas ainda é superior à mediana de mercado, de 8,5%).

Ribeiro acrescenta que, na sua visão, o crescimento da China vai enfraquecer no segundo semestre e a expansão interanual no quarto trimestre deve ser inferior a 5%, abaixo, portanto, do ritmo pré-Covid.

Em relação a 2022, o analista trabalha com uma projeção de crescimento chinês em torno de 5,2/5,3%, inferior à mediana de mercado de 5,5%.

Apesar dessa desaceleração, Ribeiro não vê o recente corte do compulsório bancário pelas autoridades chinesas como uma medida monetária de estímulo, mas sim como uma “sintonia fina” de instrumentos, uma vez que o “torniquete está sendo apertado no mercado [de crédito] não bancário”.

A grande questão relativa ao crescimento chinês, para ele, é justamente como será a virada de 2021 para 2022 e o ritmo de crescimento  do país já com a página da Covid bem virada.

Em linha com o tema abordado ontem neste espaço, dos ganhos de produto potencial e produtividade que estariam sendo trazidos por mudanças tecnológicas e de organização do trabalho precipitadas pela pandemia, Ribeiro aponta que, em prazos mais longos, há, sim, expectativas de aumento relativamente fortes da produtividade chinesa.

O problema de desaceleração do crescimento do País, porém, tem um forte componente demográfico, na medida que a contribuição do fator trabalho (que ocorre quando a população em idade ativa se expande) para a expansão da economia chinesa já foi zerada.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/7/2021, quinta-feira.

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