“Lua de mel de Temer será só com o mercado”

Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, prevê que governo Temer vai ser "um inferno". Ele acha que políticos têm que desenvolver uma outra abordagem de comunicação para vender reformas estruturais à população.

Fernando Dantas

03 de maio de 2016 | 23h32

Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, empresa de pesquisas de opinião focada no entendimento das classes C, D e E, diz que Michel Temer, caso chegue à presidência, “vai ter lua de mel com o mercado, mas não com a população – vai ser um inferno”.

Na visão de Meirelles, que tem formação de publicitário, a quase totalidade dos políticos, inclusive Temer, não está sintonizada com os anseios da maior parte da população, e tem dificuldade de articular um discurso sobre as necessárias reformas que não aliene e sofra oposição das classes populares.

Ele cita pesquisas que mostram que 84% da população acha que o Brasil não está no rumo certo, e que 59% considera que esta é a maior crise que já viveram no País. Uma maioria de 89% dos brasileiros não consegue mencionar o nome de nenhum líder que seja capaz de tirar o Brasil da crise.

Para uma parcela de 65% da população, a corrupção é a causa responsável pela atual situação econômica do Brasil, o que não é promissor para que o governo venda a necessidade de um ajuste fiscal. O sistema partidário sofre um profundo descrédito, e 62% dos brasileiros concordam com a afirmação de que “o Brasil seria melhor se não tivesse partido político nenhum”. Uma esmagadora maioria de 92,3% dos brasileiros acredita que todo político é ladrão.

Especificamente em relação ao governo Temer, de acordo com pesquisa da Datafolha de abril, 38% acham que será ruim ou péssimo, e apenas 16% pensam que será ótimo ou bom. Em comparação com o governo atual, 26% dizem que o do vice-presidente será pior, 27%, melhor, e 37% apostam que será igual.

Já pesquisa do Ibope, também de abril, indica que 62% dos brasileiros consideram que a melhor saída para a crise é que Dilma e Temer saiam e novas eleições sejam realizadas; 25% dizem preferir que Dilma continue seu mandato com um novo pacto entre governo e oposição; e apenas 8% disseram que o melhor seria o impeachment seguido de um governo Temer.

Quando se pensa em reformas estruturais para adequar as transferências previdenciárias e sociais às possibilidades fiscais, uma das tarefas que muitos analistas atribuem ao possível governo Temer, a situação se complica.

Uma parcela de 38% da população brasileira quer um Estado pouco atuante, e, entre estes, 36 pontos porcentuais correspondem a pessoas que se declaram oposicionistas ao atual governo. Por outro lado, 62% dos brasileiros querem um Estado atuante, e, entre estes, um quinhão de 44 pontos porcentuais se diz decepcionado com Dilma. Em outras palavras, a indicação é de que há mais eleitores decepcionados com a atual presidente pela desaceleração do Estado em termos de programas como Pró-Uni, Pronatec, creches gratuitas, etc. do que oposicionistas contrários à Dilma porque querem um enxugamento do Estado.

Além disso, a maioria da população brasileira quer serviços gratuitos para todos ou pelo menos para os mais pobres em diversas áreas: 52% no caso de moradia; 54% para a Internet; 55% para o transporte; 71% para o Ensino Superior; 73% para remédios; 90% para educação básica; 90% para creches; e 91% para hospitais e postos de saúde.

Para Meirelles, é fundamental que qualquer discurso a favor das reformas saia da lógica aritmética dos economistas, e tente comunicar à população que o ajuste está sendo feito de forma a garantir o melhor possível para quem mais precisa. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/5/16, segunda-feira.