Lula dinamita pontes

Discurso radical e populista de Lula antes da prisão dificulta que eventual candidato petista, em substituição a Lula, caminhe para o centro e pratique uma política econômica pró-mercado.

Fernando Dantas

09 Abril 2018 | 18h19

O discurso de Lula antes de ir preso prenuncia grandes dificuldades para que um eventual candidato petista, em substituição a Lula, construa pontes com o centro político e prepare o terreno para uma política econômica centrista – tal como vem sendo delineada por economistas ligados à legenda, como o ex-ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, e seu colaborador no governo, Manoel Pires.

Nada no discurso de Lula sugeriu qualquer aceno a uma política econômica pró-mercado e que busque o equilíbrio macroeconômico. Pelo contrário, ele prometeu reativar a máquina de crédito dos bancos públicos e desfazer as mudanças dos últimos anos na gestão da Petrobrás e no marco do petróleo. Incentivou invasões de propriedades nos campos e nas cidades, e ungiu como herdeiros alternativos (além do candidato petista) os pré-candidatos Manuela D’Ávila, do PC do B, e Guilherme Boulos, do PSOL, cujos partidos têm plataformas econômicas muito mais radicais, populistas e antiliberais do que a do PT, mesmo antes da chegada ao poder.

Lula também atacou os “engravatados”, fazendo um contraste com os seus velhos companheiros sindicalistas, que nunca o abandonaram. A primeira expressão aparentemente se referiu a empresários ou tecnocratas, dos quais Lula se aproximou no seu governo. A mensagem é de que o ex-presidente busca um purismo de esquerda, não querendo mais se contaminar com quaisquer membros das classes dominantes.

Já foi bastante notada a ironia de que Lula está hoje preso pela maciça interação com engravatados de todos os tipos (incluindo os políticos) que se locupletaram com a corrupção ocorrida durante o seu governo. De qualquer forma, a mensagem permanece a de uma guinada à esquerda, pelo menos no discurso.

Lula também repisou ao máximo a linha mestra do discurso petista que mais fez, neste lado do espectro político, por radicalizar e polarizar a política brasileira desde a década passada. A ideia é de que todo adversário de Lula, indo de juízes que o condenaram a políticos que a ele fizeram oposição, são pessoas extremamente perversas que, num país injusto e desigual como o Brasil, lutam para que os pobres se tornem mais pobres de forma a que, aritmeticamente e ignorando o processo de crescimento econômico, os ricos fiquem mais ricos.

Assim, quem se opõe a Lula quer que os pobres se alimentem mal, tenham acesso a educação e saúde de categoria inferior e sejam privados de comodidades da vida moderna como as viagens aéreas. Difícil imaginar alvos mais dignos do justo ódio do que esses supostos adversários do ex-presidente.

Dessa forma, a fala de Lula é mais combustível para radicalizar e polarizar a campanha, e para queimar as pontes de qualquer tentativa de discussão mais ponderada sobre os problemas do país, que abra caminho para alguns mínimos consensos que fiquem a salvo da sanha eleitoreira dos marqueteiros.

É compreensível que Lula, acuado e atacado por todos os lados, volte-se para a sua base mais sólida, formado por aquele grupo de pessoas que o venera como a uma divindade – e para os quais se dirige quando diz que não é mais humano, mas se transformou numa ideia. Esses são de fatos aqueles que ficarão com o Lula até o fim, não importa o que ele faça ou fale. Para o Brasil, entretanto, é uma tragédia que um presidente que soube por algum tempo combinar racionalidade econômica com busca de justiça social se transforme num líder populista ao estilo venezuelano. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/4/18, segunda-feira.